terça-feira, 18 de setembro de 2012

TONET E O GRAU DE ALFABETIZAÇÃO EM ANGOLA EM 1975



O cidadão angolano William Tonet que terá sido prisioneiro em S. Nicolau, surge indignado a repreender José Eduardo dos Santos pelo discurso proferido em Julho p.p., no qual se terá atrevido a afirmar que em 1975 apenas 2 em 100 angolanos negros sabiam ler e escrever.
Que idade tem William Tonet? Admita-se que cerca de 60 anos e, por isso, em 1975 teria 23, 24, ou 25 anos de vida. Ora ele enfurecido abespinha-se com a grave inexactidão dos  2 em 100, mas eu pergunto-lhe que tal se fosse dito 5 ou 10 em 100, mesmo assim achava excessiva a penalização do regime colonial? Este senhor esqueceu-se ou, por alguma razão especial teve de viver noutro mundo, do que se passava em Angola antes de 1961, isto é, antes da deflagração da Guerra Colonial. Ora o senhor Tonet utiliza os relatórios dos governantes coloniais de depois de Fevereiro de 1961 para tentar «desmontar» a afirmação de JES.
Deixe que lembre de alguma da realidade sobre o tema que eu, actualmente com 75 anos de idade, vivi nos anos 40 e 50:

a)     A quando da preparação do início do ano lectivo, eram abertas as inscrições nas escolas e em muitas delas, senão quase todas, estavam «cheias» para os miúdos das sanzalas, negros na sua totalidade, «aconselhando» os pais a irem na missão. Um aparte para dizer que, na realidade, as escolas públicas não estavam cheias. A este «favorecimento» atente-se ao esforço tremendo de alguns destes pais, com rendimentos miseráveis, para que os filhos aprendessem a ler e escrever, acabando, a maioria deles, por desistir desse desiderato.
b)     Até 61, em Angola apenas havia dois liceus, um em Luanda, o Liceu Salvador Correia e outro no Lubango, Sá da Bandeira ao tempo, o Liceu Diogo Cão. Neste último, entre 1950 e 1955, anos durante os quais estudei neste Liceu, havia mais de 600 estudantes, dos quais menos de 2% eram não brancos. À época, a maioria dos negros que se via nesta cidade de brancos eram os muhuílas, vivendo em condições sub-humanas ou então eram os criados dos brancos. No Salvador Correia a desproporção não era tão obscena, numa cidade onde começava a existir algum poder reivindicativo com o crescimento de uma pequena burguesia mestiça e negra. Em todas as outras cidades apenas existiam colégios privados, cujo custo de frequência, obviamente, não estava ao alcance dos pobres, sobretudo dos negros.
c)    Perante esta realidade pergunta-se, os negros que sabiam ler e escrever nesta época, seriam 2% de uma população negra de cerca de 5 milhões, isto é, haviam cerca de 100.000 letrados?
d)     Ora, em 1961, depois do início da Guerra Colonial, Angola foi redescoberta e aquela situação alterou-se significativamente, embora no princípio, através de medidas de cosmética, retratadas no Selo de Povoamento. Posteriormente, sob a pressão das populações, nomeadamente da branca, o processo evolutivo acentuou-se e até mesmo os negros beneficiaram dele, sobretudo nas cidades, em particular em Luanda. A partir de então, paulatinamente, multiplicaram-se as escolas primárias sem discriminação racial, todas as cidades passaram a ter liceus e até surgiram, «para inglês ver» em 1963 os Estudos Gerais Universitários, inicialmente confinados a Luanda que, contrariando os propósitos do governo português de então, se foram autonomizando, espalhando-se por várias cidades e adquirindo prestígio internacional.
e)     Voltando ao princípio, subsiste a dúvida de quantos negros em 100, sabendo ler e escrever, existiam em 1975 em Angola? Já seriam 5 ou mesmo 10%? E se eram, a situação era ou não grave, como consequência do regime em vigor até à independência?

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