domingo, 30 de julho de 2017


O ESQUERDISMO AINDA O É?

Em tempos, Lenine manifestou-se crítico do revolucionarismo ou esquerdismo, definindo-o como a doença infantil do comunismo. Várias décadas se passaram desde o 25 de Abril de 1974 e o esquerdismo consolidou-se em Portugal através de uma fusão de várias organizações políticas de extrema esquerda, PSR, UDP e outras, no Bloco de Esquerda BE, que hoje é a terceira força representada na Assembleia da República, fruto das eleições levadas a cabo em 2015, ultrapassando o PCP, que foi o principal opositor ao regime fascista salazarista, que continua a ter grande influência em todos os sectores da vida nacional, particularmente no movimento sindical e nas autarquias, como a terceira representação partidária e unitária.

Assim, o BE, os seus dirigentes, conquistaram posição política relevante, a meu ver, muito graças à conjugação dos factores seguintes:

a)    A persistência do modo desactualizado de comunicação da direcção do PCP com os portugueses, sem ter em conta a sua formatação quotidiana, levada a cabo pela quase totalidade dos media, incluindo os do sector público, e a hierarquia da igreja. Ora a situação nos ultimos tempos é muito diferente da que existiu até ao enraizamento anticomunista do 25 de Novembro, com a colaboração contranatura de antifascistas, como foi o caso de Mário Soares.

b)    A derrocada da União Soviética que o sistema dominante considera, entusiamado, a derrota final do socialismo, com a concumitante vitória definitiva do capitalismo.,,,

c)    A dinâmica política dos dirigentes do BE, alicerçada nos pontos anteriores e no indesmentível consistente e permanente apoio dos media, cujo inimigo principal sempre foi e continua a ser o PCP, um partido de futuro, com passado. Esta indesmentível constatação encontra-se, em termos práticos, no quotidiano da comunicação social, onde a presença do PCP ou de seus simpatizantes é nula ou pouco menos, tanto nas notícias, como nos debates, enquanto que o BE está sempre representado, rivalizando com os representantes omnipresentes dos partidos da direita, prática a que está associada a crítica insidiosa e a mistificação sobre tudo que com ele se relacione.



A actual solução governativa de esquerda, resultante quer da situação calamitosa do país e particularmente dos portugueses, causada pela terrorista governação da direita nos 4 anos anteriores  a 2015, com o beneplácito de um presidente da república incapaz e sectário, como da necessidade imperiosa de inversão governativa em favor da maioria e, não menos importante, da abertura patriótica, para um consenso à esquerda, do secretário geral do PS, do secretário geral do PCP, das direcções do BE e do PEV.

Os bons resultados da governação do PS, com o apoio dos partidos de esquerda, sem pôr em causa a respectiva identidade político-ideológica, demonstra à saciedade a correcção da escolha feita, de resto hoje plenamente reconhecida pelos dirigentes da UE e até por Schauble, ministro alemão das finanças, depois da guerra aberta que lhe moveram.

Neste contexto, apesar da conjugação dos vários partidos para a manutenção do espírito do acordo, sobressai a atitude dos dirigentes do BE, sempre prontos para as solicitações dos media, sublinhando a sua individualidade, qual arautos da verdade absoluta, dando umas vezes no cravo e outras na ferradura, não se coibindo de afirmar que estão sempre na vanguarda da luta.

Esta actuação, propositadamente publicitada, cai bem junto da juventude, é levada a cabo por gente jovem, simpática, com experiência de palco e aparentemente competente, com relêvo para a sua coordenadora, Catarina Martins, sempre impante girando qual catavento, deixando escapar um pequeno esgar de satisfação consigo própria, por vezes a despropósito.

Outro comportamento do BE, para mim, difícil de entender, são os seus afectos/desafectos por Angola e Cuba, muitas vezes em coincidência com a direita. A má vontade dos partidos que o integraram em relação ao MPLA. antes do 25 de Abril, devia-se ao seu alinhamento com o maoismo, o inacreditável regime albanês de Enver Hoxa e o antisovietismo, quando a ulterior história demonstrou o afastamento do MPLA, de Agostinho Neto, em relação à URSS. Após a independência, a 11 de Novembro de 1975, os partidos criadores do BE, deram suporte à criação e acção dos CAC, Comités Amilcar Cabral, grupos políticos de extrema esquerda que originaram a OCA, Organização Comunista de Angola, envolvida no 27 de Maio de 1977 com Nito Alves. É oportuno referir que Nito Alves, ex-dirigente e dissidente do MPLA, recebeu o apoio político da URSS



Concluindo, o esquerdismo ainda o é? Embora com novas roupagens e adaptação à situação actual, persistem neles tiques esquerdistas indicativos de que a transformação ainda é epidérmica. De facto, nos ultimos tempos, apesar de continuar a ser um dos partidos da maioria, os dirigentes do BE apregoam uma irresponsável contestação sectorial ao governo, numa aliança extemporânea à direita. reivindicando para si, em bicos de pés, o epíteto de verdadeira força de oposição.



Esperemos que não se repita a fábula do sapo e da vaca.


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