CRONICAS
ICTIOVET 2
Eduardo Lourenço, prestigiado
professor, ensaísta e escritor, reconhecido sobretudo no estrangeiro,
particularmente em França onde se exilou durante o fascismo salazarento e onde
lecciona há décadas, ex-militante do PCP do qual se desvinculou, afirmou há dias
que «foi um golpe de génio de Jerónimo de Sousa, secretário geral do PCP, que
permitiu o acordo das esquerdas» ao afirmar que o PS só não formaria governo se
não quizesse, objectivo já concretizado com a posse do governo PS, com apoio
parlamentar de maioria absoluta.
Também Ana Catarina Mendes,
vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS, elemento activo nas conversações
com o PCP, BE e PEV, declarou-se muito agradavelmente surpreendida com a total
abertura e flexibilidade demonstradas pelos comunistas para viabilizar um
governo da esquerda e sem exigência da sua particicipação nele.
Outros dirigentes e membros
proeminentes do PS como Carlos César, presidente do partido e do grupo
parlamentar, Pedro Nuno Santos, João Galamba, João Soares, Jorge Lacão, Isabel
Moreira, Capoulas Santos e tantos, tantos outros, apoiaram a iniciativa de
António Costa de entabular conversações com os outros partidos de esquerda, sem
quaisquer preconceitos, na sequência da abertura claramente manifestada por
Jerónimo de Sousa, na busca de uma alternativa política progressista. De resto,
foi maciço o apoio do secretariado e da comissão nacional do PS, àquela opção corajosamente
assumida pelo secretário geral.
Igualmente verdade é a
excitada rejeição liminar destes entendimentos por Francisco Assis e Pedro
Pinto e, embora eu não esteja certo, de José Lello, bem como de Vital Moreira e
António Barreto.
Ao fim de anos e anos de
ostracismo, iniciado no salazarismo e depois do 25 de Novembro de 1975 até ao dia
4 de Outubro p.p., de um partido que afinal quase toda a gente respeita, embora
haja quem não goste, caíu esse muro e o PCP passou a contar para o tal arco da
governação, um gueto considerado até agora propriedade privada da direita que
condescendia com a presença do PS desde que com ela alinhasse ideológicamente.
Amigas(os) é caso para se
dizer: assim se acaba por aceitar a força do PC, um partido com grande implantação
popular que Cavaco Silva ignorou sempre, desde a constituição do Conselho de
Estado até ontem, tal como se «esqueceu» sempre do BE e do PEV, partidos que,
no seu conjunto, representam mais de 20%
do eleitorado português.
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