quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A CONFIANÇA OU A FALTA DELA?

Pese embora o ruído dos media, dos comentadores oficiosos, dos fazedores de opinião, sente-se, ouve-se, grita-se, o desânimo que invadiu os cidadãos e as cidadãs portugueses e os outros europeus o qual se corporiza nas expressões: «eh pá, isto está feio, muito feio» logo seguida por «gaita, para o ano ainda será pior».
Então porquê esta generalizada e iniludível falta de esperança, embora se tente incutir-nos a ideia de que a situação de aperto, sempre provocada pelos antecessores, é passageira e, logo a seguir, à gravosa e cruel austeridade, virá o shangrilah e cairá prata a rôdos, pois o capitalismo popular (expressão paradoxal de uma dama de ferro enferrujado que destruiu o estado social do seu país) acabará por vingar e seremos todos ricos e felizes para todo o sempre…
De facto, desde há muito tempo, e já lá vão décadas, que é feito um assédio cerrado aos eleitores. com promessas de toda a ordem, repetidas por cada novo grupo mandador que está chegando, nunca cumpridas até agora, mas, as cidadãs e os cidadãos. continuam passivamente, apesar da raiva latente e dos impropérios expelidos porque sentem na pele os malefícios da governação, a dar o benefício da dúvida aos promitentes e a votar neles, conferindo-lhes maiorias mais ou menos confortáveis.
Recordemos, a propósito, algumas das promessas incumpridas:

1ª «Mais ou menos10 anos depois do ingresso na CEE (1986) o nosso nível de vida estará a par do da França e da Alemanha».
2ª «A nova constituição europeia será submetida a referendo pois os portugueses têm de ser previamente ouvidos». Lembremo-nos de que a rejeição da dita por um dos países membros impediria a sua aprovação.
3ª «No nosso mandato de governo iremos criar 150.000 postos de trabalho o que ajudará a reduzir significativamente a actual taxa de desemprego» Na época ela era de 9 ou 10%.
4ª «Se e quando formos governo não aumentaremos os impostos pois os portugueses já foram muito causticados e não aguentariam maior carga fiscal».
Creio que é desnecessário avaliar a falsidade daquelas promessas eleitorais e o terrível impacte da orientação governativa sobre o nosso nível de vida.
Além daquelas promessas vãs é curial denunciar também a farolice e o novo riquismo que foram as grandes parangonas da construção de auto-estradas ligando todas as cidades principais, verdadeiras obras faraónicas para um país pobre como o nosso. Esta foi uma irresponsável opção que estamos e continuaremos, por muito tempo, a pagar quando se devia ter investido, prioritariamente, no apoio e promoção dos jovens e depois, em termos de vias de comunicação, expandir a rede ferroviária com custos de construção e exploração menores, para além de ser ambientalmente muito mais favorável.

Por outro lado, importa também trazer a terreno a actuação da oposição, ou melhor, das oposições e a reacção dos portugueses.

É incontestável a coerência e o empenho permanente na defesa dos trabalhadores por conta doutrem, tanto os operários como os intelectuais, e dos desfavorecidos, de partidos da oposição, particularmente do PCP. A força deste partido na sociedade portuguesa, bem patente nas manifestações, nas lutas sindicais, no combate contra as injustiças é bem maior que a sua força eleitoral. De facto e paradoxalmente o PCP que já teve mais de 17% de votos em legislativas e presidiu a várias dezenas de autarquias, viu reduzida a sua expressão eleitoral, embora tenha estabilizado em cerca de 10%. É claro que não é despicienda a guerra que lhe é movida pelo status quo, com o apoio e intervenção de certo clero.
Nestas circunstâncias, porquê o recuo do PCP em lugar da sua progressão sustentada? A meu ver, em parte deve-se ao seu modo de actuação, seguido disciplinadamente desde o 25 de Abril de 1974. Na verdade e em primeiro lugar, a condenação sistemática e agressiva das políticas de direita não só já não sensibiliza quase ninguém como antes afasta. Não está em causa a justiça da acusação, isto é, são evidentes os efeitos perversos de tais políticas erradas, mas o combate contra elas deveria seguir outra orientação sensibilizadora, até porque esta monocórdica prática tem sido explorada quotidianamente e de modo exaustivo pelos partidos do poder e pelos seus fazedores de opinião, denegrindo a imagem de um partido que, segundo eles, é monolítico e parou no tempo.
É bem verdade que o PCP é o único partido comunista europeu com expressão eleitoral significativa, até porque outros seus homólogos anteriormente, renegaram a designação e os princípios. Contudo tal não basta porque o grande objectivo é a diminuição da exploração do homem pelo homem para se atingir a sua abolição total o que pressupõe o reforço do partido e da sua influência na sociedade, defendendo os seus princípios.
Em determinada altura, muitos portugueses foram sensíveis ao voluntarismo, ao «discurso novo» do BE, apoiado pelos media e afastaram-se do PCP, mas entretanto aquele partido vem perdendo, progressivamente, influência.

Perante esta situação, isto é, o incumprimento sistemático de promessas eleitoralistas e o agravamento das condições de vida por quem tem governado o país, embora com forças políticas aparentemente diferentes, e a consideração de que a oposição, nomeadamente o PCP, não é uma alternativa válida para a maioria, como reagem os portugueses?
A meu ver, a grande crise neste país que afecta os portugueses é a falta de confiança nos governantes, nos deputados, nas instituições do estado. As pessoas não confiam nos políticos e metem-nos a todos no mesmo saco e o desespero, mau conselheiro, até faz alguns (felizmente uma minoria) suspirar pelo antigamente durante o qual o cidadão não tinha que se preocupar com a gestão da coisa pública porque, sem eleições, havia os predestinados que tudo resolviam, comandados pela divina criatura de Santa Comba.

Restaurar a confiança dos cidadãos é tarefa ingente, muito árdua, mas tem que ser levada a cabo.

Não é admissível nem honesto pedir a convergência de todas as forças políticas e sociais para um projecto comum de longo prazo, destinado a recuperar o país, com iguais empenho e sacrifício de todos, quando, logo à partida, se excluem forças consideradas malditas mas que representam cerca de 20% do eleitorado. Creia-se que conjuntamente com os tais «malditos» é possível chegar a um acordo de princípio e aplicá-lo, pondo de parte o afunilamento em curso que prejudica a maioria enquanto uma minoria fica incólume e demonstra ostensivamente sinais de riqueza que afrontam a miséria e a pobreza que afectam cada vez mais portugueses.

Verifica-se (finalmente) que são cada vez mais os «especialistas» de economia e finanças, entre os quais e surpreendentemente está Manuela Ferreira Leite, que defendem a necessidade imperiosa de se renegociar a dívida pois não será possível cumprir o prazo estabelecido com a chamada troika. Comece-se por aí e procure-se o tal consenso indispensável à reabilitação sustentada de Portugal.

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