sexta-feira, 24 de abril de 2015

QUEM INICIOU A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA ?


QUEM INICIOU A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA

DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS?

Estão passando quase 39 anos desde que se tornaram independentes as antigas colonias portugueses, depois de quatro séculos de dominação de territórios imensos, nomeadamente Angola e Moçambique, por um pequeno país distante de milhares de quilómetros, distância enorme a percorrer durante longos e penosos meses, até finais do séc.XIX.

Como se explica então a aparente passividade dos povos colonizados? A meu ver, são vários os seus factores explicativos, concretamente em relação a Angola, onde nasci e vivi, tais como:

  1. O subpovoamento do interior e também das regiões costeiras, embora menos acentuado nestas, de um imenso território com mais de 1,5 milhões de km2 de superfície.
  2. A repressora máquina administrativa.
  3. A «superioridade» do branco, imposta aos negros em todas as acções do quotidiano.
  4. O total controlo económico, financeiro e fundiário do colono.
  5. A marginalização deliberada dos negros, em condições sub-humanas, em guetos (musseques), deles se ausentando apenas para ir servir o branco, auferindo salários miseráveis.
  6. As sistemáticas barreiras à entrada dos filhos dos negros no ensino e na cultura.
     
    Um exemplo extremo das consequências da segregação racial e subdesenvolvimento dos negros era a cidade de Sá da Bandeira, hoje (e sempre) o Lubango, que possuía um dos liceus do país, o Diogo Cão, onde estudavam, nos anos 50 do século passado, mais de 700 alunos, dos quais apenas menos de 3% eram negros e mestiços! A propósito, em Luanda no Liceu Salvador Correia, naquela década, já predominavam os mestiços e haviam alguns negros. Também em Benguela, cidade mestiça angolana por excelência, a população estudantil incluía já muitos mestiços e poucos negros.

Recordo agora Luanda em 1962, que há época teria mais de 500.000 habitantes, rodeada por musseques, onde não existia saneamento básico, nem abastecimento de água e electricidade, nem arruamentos. Estava-se ainda no rescaldo dos trágicos acontecimentos de 15 de Março de 1961 nos Dembos e era comum a acusação na praça pública, de terrorista, para um qualquer transeunte negro que se lhes atravessasse no caminho.

Apesar de tudo, na década de 60 do século passado, a situação sócio-económica dos mestiços e negros em Luanda e nas grandes cidades (Benguela, Lobito, Huambo) era melhor do que a que se passava nos pequenos agregados populacionais, pois naquelas já aflorava uma pequena burguesia, sobretudo mestiça mas também negra que desempenhava funções no aparelho de estado, tolerada à distância pelo branco.

O que está em causa agora é assinalar quem de facto iniciou a luta pela independência das colónias portuguesas, isto é, qual o ponto de partida da mesma.

A meu ver, na base de tudo estiveram intelectuais que meteram ombros a uma ciclópica tarefa de chamar os colonizados e o mundo para a realidade colonial onde imperava a injustiça, uma feroz segregação racial, o desprezo pela dignidade humana dos colonizados, com o domínio absoluto de uma minoria branca, dona de tudo e de todos.

No caso de Angola, que creio possa ser extensível às outras colónias, estão entre muitos outros, Mário de Andrade, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, Lúcio Lara, Joaquim Pinto de Andrade, António Jacinto, Carlos Rocha, Gentil Viana, Júlio Almeida, Carlos Ervedosa, Salvador Ribeiro, Tomás Medeiros, Costa Andrade, Manuel Lima, Luandino Vieira, Henrique Abranches, Ermelinda Graça, Edmundo Gonçalves, Edmundo Rocha, Aida e Percy Freudenthal, Ernesto Lara, David Bernardino e muitos outros, muitos outros.

Além destes nomes sonantes, que por direito próprio fazem parte relevante da História do país, muitos mais intelectuais angolanos que hoje não passam de meros anónimos, deram o seu contributo, fazendo trabalho de sapa no quotidiano, nos contactos com as gentes, quer em Angola como em Portugal, antes como depois do início da guerra anti-colonial e a seguir ao fim da devastadora guerra civil.

Foram de facto aqueles intelectuais que iniciaram a luta de libertação, passando o testemunho, sem dele se afastarem, àqueles que encabeçaram a luta armada no terreno e na rectaguarda, entre os quais muitos dos constantes da lista acima a que se juntaram angolanos de todas as proveniências.

O analfabetismo e incultura impostos pelo governo fascista de Portugal explicam que só posteriormente, a pouco e pouco, as massas populares foram aderindo ao processo.

Por fim, vem a talhe de foice referir uma afirmação de José Manuel Jara, médico nascido em Angola, citado por Fenando Dacosta em «Os retornados mudaram Portugal» de que dos 600.000 brancos «retornados» apenas 1000 tinham consciência do que do que se passou em Angola. Esta minoria era a camada progressista e intelectual, onde se incluíam os acima referidos.

Aquela frase de Jara foi o mote para esta minha reflexão.

 

domingo, 22 de junho de 2014


O TRIBUNAL CONSTITUCIONAL E A ALEGADA DEMÈNCIA DE CAVACO SILVA


Hoje em conversa com minha mulher, ela defendeu que o Tribunal Constitucional deveria intervir perante a apatia do presidente Cavaco Silva.
Esta opinião surgiu ao relembrarmo-nos da atitude desassombrada do General Garcia dos Santos, um militar de Abril, que se demitiu do Conselho Superior das Ordens Honoríficas «por não poder mais com o Presidente Cavaco, com a sua passividade» e, eu acrescento, com a sua confrangedora inércia e ruidoso silêncio, em face do sistemático atentado e provocação do governo, com o primeiro ministro à cabeça, à Constituição da República
Perante esta grave situação, Cavaco Silva diz, com aquele opaco fácies, «não sou sensível a pressões», mas a quais pressões a que ele não é sensível? Ao facto de se lhe recordar que jurou (terá sido com figas?), no acto de posse, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República? Mas que maior pressão é a do governo e seus acólitos, sobre o Tribunal Constitucional, ao apresentar três Orçamentos de Estado anticonstitucionais e o zelador e putativo defensor da Constituição manter-se impávido e abúlico?
Nestas circunstâncias, este presidente da república está a prejudicar e impedir o normal funcionamento das instituições do estado e, pelos vistos, sem se dar conta disso. De facto, Cavaco Silva já teve, pelo menos, duas camuecas, uma em 1995 e outra no dia 10 de Junho deste ano, provavelmente causadas pelo progressivo desenvolvimento de uma doença neurológica. Ora segundo uma mensagem que corre na net do Engº Carlos Pimenta, ex-colaborador do presidente e ex- secretário de Estado das Pescas e do Ambiente, o presidente sofre de Doença de Alzheimer, uma forma de demência progressiva. Por outro lado, o Jornal New York Times do dia 1 de Junho p.p., anunciou a breve resignação do presidente da república, por sofrer da doença atrás referida  Significa pois que Cavaco Silva cada vez menos dispõe de condições físicas e psíquicas para desempenhar em plenitude o cargo de Mais Alto Magistrado da Nação e, sabendo-se quem é a segunda figura de Estado, a Pátria está em perigo.

Assim, dever-se-ia pedir ao Tribunal Constitucional a avaliação da constitucionalidade da permanência de Cavaco Silva como Presidente da República, pois não garante o normal funcionamento das Instituições da República Portuguesa.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014


FLAGRANTES DESTA VIDA REAL

Recordo-me das Selecções do Reader’s  Digest, revista que o meu pai assinava e eu lia quando adolescente, em particular a rubrica onde eram relatados casos mais ou menos insólitos, conteúdo que agora recupero, para ilustrar situações semelhantes que ocorrem em Portugal.

  1. Começo por um caso que eclodiu há dias nos media, relacionado com a insólita reacção de um fazedor de opinião, ex-dirigente partidário, ex-candidato à presidência da Câmara de Lisboa, mergulhador no Tejo, putativo candidato a presidente da republica, perante a sua exclusão a candidato a candidato às próximas presidenciais pelo chefe do seu partido que alegadamente o considerou catavento e de opiniões erráticas, em face desta opinião ofensiva, «aceitou» abnegada e bovinamente tal veto….
  2. O imbróglio sobre os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, dois anos depois de estarem parados, a acumular prejuízos, com o governo a recusar o investimento necessário à sua reactivação, com a sua obscura subconcessão pelo ministro da defesa a uma empresa privada sem currículo na matéria, implicando o despedimento de mais de 600 trabalhadores, continua por esclarecer e o ministro  mantém-se imperturbável.
  3. A discussão em plenário da Assembleia da Republica, na semana passada, da coadopção e a despudorada fabricação de um referendo por um garoto inconsistente e néscio, obviamente, a mando do seu chefe, pois o assunto fora discutido na reunião da comissão política do partido, é o retrato de que certos deputados não merecem sê-lo, bem como de chefes sem categoria nem inteligência. Por outro lado, a imposição da disciplina de voto, para um tema como o que estava na mesa, é lamentável e antidemocrática, insólito a que acresceram as infelizes e farisaicas declarações de voto, depois de terem votado favoravelmente. Por ultimo, a atitude do CDS, parceiro falso e sem escrúpulos, da coligação governante, ao abster-se, camuflando-se do seu perene conservadorismo reaccionário que teve como exemplar máximo o deputado Morgado que Natália Correia ridicularizou.
  4. Realço agora o caso de um programa de rádio, presente no ar desde o século passado, intitulado «O amor é…» que vai para o étér de 2ª a 6ª feira, depois das nove da manhã, durante 5-10 minutos, beneficiando ainda de mais 60 minutos ao fim de semana. Fazem parte do elenco do «Amor é...(a maior parte dos programas mereceria antes o título de O sexo é…»), um conhecido psiquiatra com saber enciclopédico, émulo de Gregorio Marañon, e uma jornalista que se cumprimentam afectuosamente, como acontece nos últimos tempos, iniciando-se com a saudação seguinte: Olá Juliiiiiinho…». Penso que no panorama actual da rádio portuguesa «O amor (sexo) é…» é o programa com maior longevidade e não se esqueça que também já esteve na televisão, com periodicidade idêntica à da rádio. Arrisco-me a prever que ele perdurará por muitos e bons anos.
  5. Uma notícia de hoje, a preceder o encontro dos mais ricos do planeta em Davos, é aterradora e espelha uma injustiça que continua a crescer em paralelo com o marcado aumento da probreza, ao concluir-se que metade da riqueza mundial é pertença de 1%, um por cento, da população. Em Portugal, cujos governantes e sua maioria são amantes do ultraliberalismo, o fosso entre ricos e pobres é cada vez maior, com os amorins, soares, azevedos, etc., etc.,a encher-se à tripa fôrra à custa da crise fomentada todos os dias.
  6. O governo criou um grupo de trabalho independente (ah!ah!ah!)  que lhe possibilitará fundamentar o corte definitivo das pensões da CGA. É doentio o ódio com que o governo e sua maioria perseguem os funcionários públicos e os pensionistas da CGA .

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013


                                 CONVERGIR É PRECISO


A situação crítica que vive a maioria dos portugueses era impensável há não muito tempo, isto é, no início de 2010.

Não é uma maquinação afirmar-se que a classe média portuguesa praticamente desapareceu e até uma parte dela já recorre aos bancos alimentares, perdeu a capacidade de pagar a renda de casa e/ou o empréstimo bancário, a água, o gás, a energia eléctrica, a escola dos miúdos, sendo a sua última âncora os pais e até os avós, dito de outra maneira, são os novos pobres. A par da falência de classe média estão os velhos pobres e os sem abrigo, brutalizados por uma inaudita miséria extrema, o que permitiu a terrível notícia difundida esta semana de que, nos últimos anos, mais de 80.000 portugueses morreram de frio.

Por outro lado, no mesmo período, venderam-se facilmente automóveis de mais de 100.000 euros, casas/vivendas/palácios de valores superiores a 1.000.000 de euros, fenómeno ilustrado quer pela arrogância de tais novos e velhos ricos, quer pela constatação estatística de que aumentou consideravelmente o número de ricos em Portugal. Um caso exemplar é o ganho das grandes cadeias de super/hipermercados com o aumento das vendas quando as entidades de solidariedade social apelam, aos fins de semana, à dádiva de géneros alimentares, sem que tais cadeias deem qualquer contribuição.

Parece evidente que o empobrecimento da maioria dos portugueses concomitante com o enriquecimento de uma minoria privilegiada, é fruto da acção persistente deste governo e da maioria que o sustenta, onde avultam os tais ricos cada vez mais ricos.

De facto, esta constatação contraria aquilo que, por vezes, se ouve e diz de que Passos Coelho, seus sequazes e bonzos são incompetentes, desconhecem o país e os portugueses. Pois porque conhecem os portugueses, eles são competentes a servir os seus interesses, coincidentes com os daquela enfatuada minoria podre de rica, à custa de uma maioria enganada e obnubilada pela oleada máquina de embrutecimento, maioria essa que continuou a votar, contra natura, naqueles que conseguiram destruir, em dois anos, toda a sua qualidade de vida.

Ainda a propósito da última âncora das famílias depauperadas, os pais e, sobretudo, avós, estes governantes e seus deputados cegos e surdos perante a pobreza e a instabilidade que causam, esbulharam os reformados cortando-lhes as pensões e aprestam-se para mais cortes contidos no OE 2014, sob o pretexto de que todos (ah!ah!ah!...) os portugueses têm de dar a sua contribuição, não honrando assim os compromissos contratualizados pelo Estado a quando do início da sua carreira contributiva.

Hoje em dia, afirma-se de que a base de apoio político desta maioria governante ter-se-à reduzido drasticamente, em consequência das suas políticas agressivas e empobrecedoras. Parece uma dedução plausível, evidente e plenamente justificada o que deveria obrigar a reforçar a luta para o seu afastamento quanto antes.

Neste contexto cresceu a responsabilidade dos partidos da oposição e também de todos aqueles que repudiam tais políticas que afrontam repetidamente a Constituição da República, empenhando-se na realização de eleições antecipadas e consequente substituição do governo e da sua base parlamentar de apoio. Este desiderato seria fácil de atingir se o presidente da república honrasse o juramento que fez no acto de posse do cargo e tomasse a iniciativa de pôr cobro aos malefícios causados aos portugueses pelo governo. Ora, o presidente Cavaco, fiel ao objectivo vital de Sá Carneiro, isto é, «uma maioria, um governo, um presidente», está sempre solidário com as acções destruidoras dos últimos dois anos.

Assim, a luta comum é um imperativo patriótico para a alteração da situação do país em benefício dos portugueses, particularmente dos mais desfavorecidos.

Não é admissível sequer conceder o benefício da dúvida ao governo e sua maioria que monolítica e arrogantemente decidem, fazendo tábua rasa da maioria esmagadora das propostas da oposição, não se coibindo da arruaça, da chicana, perante as opiniões contrárias ao seu catecismo e ignoram os protestos dos milhares que se têm manifestado nas ruas e fora delas, contra as suas políticas.

É imperioso enfatizar a indispensabilidade da presença do PS e dos outros partidos de esquerda, sua convergência sem se pôr em causa a s suas identidades politico-ideológicas, em qualquer alternativa à actual política governativa. Os preconceitos que ainda existem entre estas organizações partidárias só têm beneficiado a direita que, em alturas de crise, une-se sem hesitação, dando-nos uma lição de solidariedade inter-pares.

Nestas circunstâncias, o resultado da boa vontade conducente à viabilização das propostas da direita é sempre uma vantagem para ela, já que as do esquerda, seja o PS, o PCP, os Verdes ou o BE, na sua esmagadora maioria são rejeitadas

Refira-se a despudorada e persistente côrte ao PS, pela direita e seus apaniguados, através de autênticos cânticos da sereia, incluindo-o magnânimamente no chamado «arco da governabilidade (Portas dixit)», na tentativa de atraí-lo para o neoliberalismo mais reacionário.

Por outro lado, no contexto da política destrutiva do governo está o comportamento da UGT, «dando a mão ao governo» em decisões essenciais que contundem com a defesa dos trabalhadores. Não é necessário recuar muito no tempo, bastam alguns exemplos recentes como a alteração da legislação laboral em benefício dos patrões e, agora, o apoio à pirueta do ministro da educação que reduziu a imposição da prova de avaliação aos professores contratados com menos de cinco anos de actividade, depois de ter defendido encarniçadamente a sua aplicação a todos aqueles.

Não se dá conta que é à custa destes espúrios conluios que a direita e a troika apregoam uma hipócrita concertação social, quando a CGTP, fica de fora por considerar inaceitáveis as propostas governamentais que prejudicam seriamente quem trabalha, aquilo que o tempo acaba por comprovar? Será demagogia e/ou sectarismo denunciar aquela pseudo concertação social?

Mais do que nunca é imperativa a convergência das forças políticas progressistas para se travar a destruição do estado social e o desbaratamento do património nacional que é de todos os portugueses, de que é flagrante a entrega dos Estaleiros de Viana do Castelo a uma empresa privada deficitária, através de um processo, no mínimo, nebuloso, da «concessão» da ANA, da venda dos CTT e da já projectada privatização da TAP, alienando-se empresas públicas rentáveis, em benefício de privados «nacionais» e internacionais.

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013


DESONESTIDADES

A crise não pode, não deve, permitir que tudo vale para se tentar explicar o inexplicável. As manobras em curso dos dirigentes e amigos (genericamente os media nacionais e os fazedores oficiais de opinião) dos partidos da coligação governante, roçam a amoralidade, a falta de escrúpulos.

Trata-se de uma tentativa de lavagem da prática governativa, ao jeito do que se passa com o branqueamento de capitais obscuros, utilizando-se argumentos falsos num despudor inaudito.

Neste momento o alvo principal é o Tribunal Constitucional que pretendem responsabilizar por todos os seus insucessos passados, actuais e futuros e, mais ainda, tentam culpabilizá-lo por um eventual pedido de segundo resgate e consequentes maiores danos para os portugueses.

Esta actuação revela uma gritante desonestidade dos seus mentores, à cabeça o primeiro-ministro, promotores de uma desbragada lavagem ao cérebro das cidadãs e cidadãos deste país, criando bodes expiatórios, os mauzões que não deixam governar (a seu bel-prazer, digo eu), ocupando o pódio aquele Tribunal.

Repare-se que a tónica é sempre dada às «consequências gravosas» do chumbo do T.C. às «virtuosas intenções» do governo e nunca se faz menção à afronta das propostas do mesmo com textos que violam descarada e acintosamente a Constituição da Republica.

Neste propósito mistificador, sem inquietação de consciência, surgiu hoje uma intervenção na rádio, Antena 1, no programa Conselho Superior, cerca das 8h45, programa que retomou a actividade, após a sua suspensão durante o mês de Agosto. O autor da inadmissível diatribe contra o T.C. foi o senhor José Luis Arnaud (ou Arnauth?) que eivado de raiva irracional, fez as seguintes afirmações irresponsáveis:

a)    A avaliação do diploma do governo, através do qual se pretendia fazer despedimentos na Função Pública (sem justa causa, sublinho eu), foi feita por metade dos juízes daquele Tribunal, porque os restantes se recusaram a interromper as férias !!!!!!!!!!! Alguém acredita que J.L.A. ignora as normas que regem o T.C., nomeadamente o regime de férias dos seus juízes, em dois turnos e cujo presidente goza apenas uma semana, o qual os impede de interrompê-las seja a que pretexto for? Se desconhece o assunto informe-se primeiro e seja decente e honrado.

b)    Afirmou ainda que com aquele diploma se queria fazer justiça, equiparando o regime de despedimento dos funcionários públicos ao dos trabalhadores do privado quando na verdade para estes é imperativa a justa causa para despedir.

c)    O T.C. é o órgão de soberania que goza das maiores mordomias….

d)    Depreende-se que J.L.A. também desconhece (ou faz de conta?) que o T.C., órgão de soberania, autónomo e independente, depois das sucessivas alterações do texto constitucional com a participação do partido a que ele pertence, tem como função específica velar pelo cumprimento da Constituição da Republica, o que tem sido sucessivamente levado a cabo.

 

Diga-se, a propósito, que o Presidente da Republica, Cavaco Silva, tem feito tábua rasa do juramento que assumiu em defender a Constituição, antes atropelando-a pondo acima de tudo as suas opções político-ideológicas e partidárias.

 

Concluindo, é curial interrogarmo-nos até quando e onde chegará a perversão da nossa democracia que o 25 de Abril nos trouxe, isto é, quais são os riscos que todos estamos a correr e em benefício de quem?

 

 

domingo, 4 de agosto de 2013



                                             AMBIGUIDADES

A mais recente crise política esteve germinando durante os dois anos do governo PPD/CDS e acabou por aparecer às claras com a demissão do ministro das finanças, Victor Gaspar, verdadeiramente um elemento destacado da tróica, que impôs aos portugueses desfavorecidos uma austeridade criminosa, ultrapassando mesmo os ditames conhecidos daquela organização tripla+1.

Pois bem, Victor Gaspar justificou o seu pedido de demissão perante o fracasso total das suas políticas destruidoras do tecido social, económico e financeiro nacional, confessou-se incapaz de prosseguir, fugiu a sete pés e deixou evidente a fraca liderança do governo. Pergunta-se: quem vai ressarcir os portugueses das malfeitorias perpetradas por este ex-governante e cegamente sustentadas pelo primeiro-ministro e maioria parlamentar?
A seguir demitiu-se Paulo Portas declarando que se tratava de uma decisão irrevogável. Ora subitamente o irrevogável passou a revogável, sob a pressão do primeiro-ministro, dos media, dos fazedores de opinião e, sobretudo, do presidente da republica Cavaco Silva. Entretanto, a tremenda manobra, então desencadeada, não apaga a clara demonstração de falta de carácter de Paulo Portas.

O puzzle completa-se com a patética intervenção de Cavaco Silva para a salvação do seu governo e maioria de apoio, em várias fases, a primeira aparentando desconfiança naqueles, ignora a proposta de remodelação feita com pompa e circunstância pelo primeiro-ministro e ameaça usar todos os meios jurídico-constitucionais ao seu dispor para uma solução governativa, deixando subentendida uma iniciativa pessoal. Na segunda fase, uma revisão desajeitada daquela, quis impor o comprometimento do PS na conjectura de solução para a salvação nacional, promovendo reuniões tripartidas PS+PPD+CDS por serem estes os únicos partidos do arco governamental, isto é, desprezando os outros partidos que representam cerca de 20% do eleitorado português, numa demonstração cabal da sua pequenez mental e do seu fundo antidemocrático e ditatorial. A terceira fase é a negação da primeira, pois dá o aval ao governo recauchutado e preconiza a sua continuidade até ao fim da legislatura…

Diante de todas estas manobras antidemocráticas visando a manutenção da maioria e seu governo qual foi a posição do PS? Depois de ter denunciado publicamente a incompetência e incapacidade do governo que conduziram ao desastre nacional e de considerar como única solução para a crise política a realização de eleições legislativas antecipadas, simultâneamente com as autárquicas, em Setembro, numa lamentável cambalhota aceita o repto de Cavaco e reúne-se, horas e horas a fio, com os partidos da coligação que não conduziram a nada porque a pressão exercida pela opinião publica e por figuras gradas do seu partido, o secretário-geral do PS, viu-se coagido a rejeitar as medidas agravadoras da situação social e económica do país propostas pelos seus companheiros privilegiados de diálogo. A bem da verdade convém referir a exigência prévia do PS de que todos os partidos fossem ouvidos, o que se perdeu logo a seguir sem qualquer reacção.

Infelizmente a ambiguidade da direcção do PS, jogando com um pau de dois bicos, não é de agora, tem dezenas de anos e tem contribuído, dentro ou fora do governo, para o estado actual do país, dos portugueses. Não é possível, ao mesmo tempo, estar de bem com deus e com o diabo, é imperativo escolher inequivocamente de que lado se está, isto é, considerando-se o PS um partido de esquerda como explicar que as suas alianças tenham sido sempre com a direita? Partindo daquele princípio ideológico, como aceita o PS a sistemática discriminação do presidente da república em relação ao PCP e BE, desde a constituição do Conselho de Estado à injustificável exclusão do chamado arco governamental? Porque é que rejeita a discussão, com os outros partidos de esquerda, dos problemas do país com vista à sua solução, sem risco de perda da sua identidade político-ideológica e sem obrigatórias implicações governamentais, quando está sempre disponível para reunir com a direita? A situação do país não é ainda suficientemente demonstrativa de que é preciso mudar de rumo? Estou convencido de que não comunga das opiniões do CDS, particularmente do seu chefe de bancada e do eurodeputado Nuno Melo, que, quando em diálogo parlamentar com o PCP, ao não terem mais argumentos, a propósito de tudo e de nada, logo invocam a União Soviética e os gulagues, à boa maneira do estado velho salazarento.
             O PS como partido de esquerda, que o é na sua essência, é tempo de deixar a ambiguidade que só o prejudica e aos portugueses e beneficia a direita, nomeadamente aquela que nos (des) governa e que quer agravar ainda mais as desigualdades em proveito de uma minoria insaciável que não respeita os direitos adquiridos após o 25 de Abril, nem sequer os compromissos assumidos pelo Estado com os pensionistas e reformados

sábado, 3 de agosto de 2013


               O CANTO DAS SEREIAS

Em vários jornais e canais televisivos foi ontem divulgado o resultado de uma sondagem levada a cabo pela Universidade Católica no final de Julho, com uma margem de êrro mínima e 95% de fiabilidade.

Sondagens são sondagens, valem o que valem, como é uso dizer-se, com enfado e desesperança. Creio que, apesar de tudo, poderão ser um indicador e correspondem a uma realidade que, é ou não, mais ou menos influenciada por elas.

Assim, se se realizasse agora eleições legislativas o PS teria 35% de votos, o PPD 32%, a CDU 11%, o BE 7% e o CDS 3%

Após a divulgação das ditas sondagens verifica-se sempre, repito sempre, um fenómeno de prestidigitação que clara e significativamente condiciona a opinião e o voto dos eleitores. De resto, é essa a intenção dos mágicos comentadores, fazedores de opinião e politólogos oficiais, escolhidos a dedo que pululam nas televisões, rádios, jornais, etc. Por coincidência, à parte pequenas diferenças cosméticas, comungam todos dos mesmos princípios, balizados pelo status quo nacional, comunitário e internacional. Ai daqueles que, por distracção ou tomada de consciência, se atrevam a sair do rebanho.

  Tais agentes da propaganda confinam-se, como sempre se confinaram, à potencial votação no PS e PPD e à diferença mínima de 3% que os separaria e, piedosamente, referem-se ao trambolhão do CDS, transformando-o numa micro bengala mas que, apesar disso, continua a pertencer ao glosado (e gozado) «arco da governação». O seu objectivo prioritário é a alternância PS/PPD, ao jeito boné branco, branco boné, imposta há 38 anos pelo que rejeitam todas as alternativas fora deste trio. Qualquer outra reflexão é despicienda porque nada mais aconteceu…

Porque será que esta monolítica gente não tem um assomo de honestidade intelectual e soma os votos dos partidos de esquerda, PS+PCP+BE, que em percentagem perfariam 53%, enquanto a direita não ultrapassaria os 35%, isto é, a esquerda teria uma confortável maioria? Ora, segundo os seus dogmas, a hipótese de uma esquerda maioritária no parlamento é algo condenado a priori, do outro mundo, inadmissível, já que, no seu discriminatório critério, o PCP e o BE, representando quase 20% do eleitorado, não fazem parte do «arco da governação».

Pergunta-se então, a quem cabe a escolha dos partidos e da sua representatividade na AR? São as portuguesas e os portugueses e não aqueles, nacionais e estrangeiros, que se alcandoram em donos de Portugal.

Ao «arco da governação» deste país pertencem todos os deputados com assento parlamentar. As portuguesas e os portugueses merecem mais respeito mas só é pena que não façam valer o seu direito à verdade e continuem a ir no canto das sereias de gente sem escrúpulos.