segunda-feira, 2 de setembro de 2013


DESONESTIDADES

A crise não pode, não deve, permitir que tudo vale para se tentar explicar o inexplicável. As manobras em curso dos dirigentes e amigos (genericamente os media nacionais e os fazedores oficiais de opinião) dos partidos da coligação governante, roçam a amoralidade, a falta de escrúpulos.

Trata-se de uma tentativa de lavagem da prática governativa, ao jeito do que se passa com o branqueamento de capitais obscuros, utilizando-se argumentos falsos num despudor inaudito.

Neste momento o alvo principal é o Tribunal Constitucional que pretendem responsabilizar por todos os seus insucessos passados, actuais e futuros e, mais ainda, tentam culpabilizá-lo por um eventual pedido de segundo resgate e consequentes maiores danos para os portugueses.

Esta actuação revela uma gritante desonestidade dos seus mentores, à cabeça o primeiro-ministro, promotores de uma desbragada lavagem ao cérebro das cidadãs e cidadãos deste país, criando bodes expiatórios, os mauzões que não deixam governar (a seu bel-prazer, digo eu), ocupando o pódio aquele Tribunal.

Repare-se que a tónica é sempre dada às «consequências gravosas» do chumbo do T.C. às «virtuosas intenções» do governo e nunca se faz menção à afronta das propostas do mesmo com textos que violam descarada e acintosamente a Constituição da Republica.

Neste propósito mistificador, sem inquietação de consciência, surgiu hoje uma intervenção na rádio, Antena 1, no programa Conselho Superior, cerca das 8h45, programa que retomou a actividade, após a sua suspensão durante o mês de Agosto. O autor da inadmissível diatribe contra o T.C. foi o senhor José Luis Arnaud (ou Arnauth?) que eivado de raiva irracional, fez as seguintes afirmações irresponsáveis:

a)    A avaliação do diploma do governo, através do qual se pretendia fazer despedimentos na Função Pública (sem justa causa, sublinho eu), foi feita por metade dos juízes daquele Tribunal, porque os restantes se recusaram a interromper as férias !!!!!!!!!!! Alguém acredita que J.L.A. ignora as normas que regem o T.C., nomeadamente o regime de férias dos seus juízes, em dois turnos e cujo presidente goza apenas uma semana, o qual os impede de interrompê-las seja a que pretexto for? Se desconhece o assunto informe-se primeiro e seja decente e honrado.

b)    Afirmou ainda que com aquele diploma se queria fazer justiça, equiparando o regime de despedimento dos funcionários públicos ao dos trabalhadores do privado quando na verdade para estes é imperativa a justa causa para despedir.

c)    O T.C. é o órgão de soberania que goza das maiores mordomias….

d)    Depreende-se que J.L.A. também desconhece (ou faz de conta?) que o T.C., órgão de soberania, autónomo e independente, depois das sucessivas alterações do texto constitucional com a participação do partido a que ele pertence, tem como função específica velar pelo cumprimento da Constituição da Republica, o que tem sido sucessivamente levado a cabo.

 

Diga-se, a propósito, que o Presidente da Republica, Cavaco Silva, tem feito tábua rasa do juramento que assumiu em defender a Constituição, antes atropelando-a pondo acima de tudo as suas opções político-ideológicas e partidárias.

 

Concluindo, é curial interrogarmo-nos até quando e onde chegará a perversão da nossa democracia que o 25 de Abril nos trouxe, isto é, quais são os riscos que todos estamos a correr e em benefício de quem?

 

 

domingo, 4 de agosto de 2013



                                             AMBIGUIDADES

A mais recente crise política esteve germinando durante os dois anos do governo PPD/CDS e acabou por aparecer às claras com a demissão do ministro das finanças, Victor Gaspar, verdadeiramente um elemento destacado da tróica, que impôs aos portugueses desfavorecidos uma austeridade criminosa, ultrapassando mesmo os ditames conhecidos daquela organização tripla+1.

Pois bem, Victor Gaspar justificou o seu pedido de demissão perante o fracasso total das suas políticas destruidoras do tecido social, económico e financeiro nacional, confessou-se incapaz de prosseguir, fugiu a sete pés e deixou evidente a fraca liderança do governo. Pergunta-se: quem vai ressarcir os portugueses das malfeitorias perpetradas por este ex-governante e cegamente sustentadas pelo primeiro-ministro e maioria parlamentar?
A seguir demitiu-se Paulo Portas declarando que se tratava de uma decisão irrevogável. Ora subitamente o irrevogável passou a revogável, sob a pressão do primeiro-ministro, dos media, dos fazedores de opinião e, sobretudo, do presidente da republica Cavaco Silva. Entretanto, a tremenda manobra, então desencadeada, não apaga a clara demonstração de falta de carácter de Paulo Portas.

O puzzle completa-se com a patética intervenção de Cavaco Silva para a salvação do seu governo e maioria de apoio, em várias fases, a primeira aparentando desconfiança naqueles, ignora a proposta de remodelação feita com pompa e circunstância pelo primeiro-ministro e ameaça usar todos os meios jurídico-constitucionais ao seu dispor para uma solução governativa, deixando subentendida uma iniciativa pessoal. Na segunda fase, uma revisão desajeitada daquela, quis impor o comprometimento do PS na conjectura de solução para a salvação nacional, promovendo reuniões tripartidas PS+PPD+CDS por serem estes os únicos partidos do arco governamental, isto é, desprezando os outros partidos que representam cerca de 20% do eleitorado português, numa demonstração cabal da sua pequenez mental e do seu fundo antidemocrático e ditatorial. A terceira fase é a negação da primeira, pois dá o aval ao governo recauchutado e preconiza a sua continuidade até ao fim da legislatura…

Diante de todas estas manobras antidemocráticas visando a manutenção da maioria e seu governo qual foi a posição do PS? Depois de ter denunciado publicamente a incompetência e incapacidade do governo que conduziram ao desastre nacional e de considerar como única solução para a crise política a realização de eleições legislativas antecipadas, simultâneamente com as autárquicas, em Setembro, numa lamentável cambalhota aceita o repto de Cavaco e reúne-se, horas e horas a fio, com os partidos da coligação que não conduziram a nada porque a pressão exercida pela opinião publica e por figuras gradas do seu partido, o secretário-geral do PS, viu-se coagido a rejeitar as medidas agravadoras da situação social e económica do país propostas pelos seus companheiros privilegiados de diálogo. A bem da verdade convém referir a exigência prévia do PS de que todos os partidos fossem ouvidos, o que se perdeu logo a seguir sem qualquer reacção.

Infelizmente a ambiguidade da direcção do PS, jogando com um pau de dois bicos, não é de agora, tem dezenas de anos e tem contribuído, dentro ou fora do governo, para o estado actual do país, dos portugueses. Não é possível, ao mesmo tempo, estar de bem com deus e com o diabo, é imperativo escolher inequivocamente de que lado se está, isto é, considerando-se o PS um partido de esquerda como explicar que as suas alianças tenham sido sempre com a direita? Partindo daquele princípio ideológico, como aceita o PS a sistemática discriminação do presidente da república em relação ao PCP e BE, desde a constituição do Conselho de Estado à injustificável exclusão do chamado arco governamental? Porque é que rejeita a discussão, com os outros partidos de esquerda, dos problemas do país com vista à sua solução, sem risco de perda da sua identidade político-ideológica e sem obrigatórias implicações governamentais, quando está sempre disponível para reunir com a direita? A situação do país não é ainda suficientemente demonstrativa de que é preciso mudar de rumo? Estou convencido de que não comunga das opiniões do CDS, particularmente do seu chefe de bancada e do eurodeputado Nuno Melo, que, quando em diálogo parlamentar com o PCP, ao não terem mais argumentos, a propósito de tudo e de nada, logo invocam a União Soviética e os gulagues, à boa maneira do estado velho salazarento.
             O PS como partido de esquerda, que o é na sua essência, é tempo de deixar a ambiguidade que só o prejudica e aos portugueses e beneficia a direita, nomeadamente aquela que nos (des) governa e que quer agravar ainda mais as desigualdades em proveito de uma minoria insaciável que não respeita os direitos adquiridos após o 25 de Abril, nem sequer os compromissos assumidos pelo Estado com os pensionistas e reformados

sábado, 3 de agosto de 2013


               O CANTO DAS SEREIAS

Em vários jornais e canais televisivos foi ontem divulgado o resultado de uma sondagem levada a cabo pela Universidade Católica no final de Julho, com uma margem de êrro mínima e 95% de fiabilidade.

Sondagens são sondagens, valem o que valem, como é uso dizer-se, com enfado e desesperança. Creio que, apesar de tudo, poderão ser um indicador e correspondem a uma realidade que, é ou não, mais ou menos influenciada por elas.

Assim, se se realizasse agora eleições legislativas o PS teria 35% de votos, o PPD 32%, a CDU 11%, o BE 7% e o CDS 3%

Após a divulgação das ditas sondagens verifica-se sempre, repito sempre, um fenómeno de prestidigitação que clara e significativamente condiciona a opinião e o voto dos eleitores. De resto, é essa a intenção dos mágicos comentadores, fazedores de opinião e politólogos oficiais, escolhidos a dedo que pululam nas televisões, rádios, jornais, etc. Por coincidência, à parte pequenas diferenças cosméticas, comungam todos dos mesmos princípios, balizados pelo status quo nacional, comunitário e internacional. Ai daqueles que, por distracção ou tomada de consciência, se atrevam a sair do rebanho.

  Tais agentes da propaganda confinam-se, como sempre se confinaram, à potencial votação no PS e PPD e à diferença mínima de 3% que os separaria e, piedosamente, referem-se ao trambolhão do CDS, transformando-o numa micro bengala mas que, apesar disso, continua a pertencer ao glosado (e gozado) «arco da governação». O seu objectivo prioritário é a alternância PS/PPD, ao jeito boné branco, branco boné, imposta há 38 anos pelo que rejeitam todas as alternativas fora deste trio. Qualquer outra reflexão é despicienda porque nada mais aconteceu…

Porque será que esta monolítica gente não tem um assomo de honestidade intelectual e soma os votos dos partidos de esquerda, PS+PCP+BE, que em percentagem perfariam 53%, enquanto a direita não ultrapassaria os 35%, isto é, a esquerda teria uma confortável maioria? Ora, segundo os seus dogmas, a hipótese de uma esquerda maioritária no parlamento é algo condenado a priori, do outro mundo, inadmissível, já que, no seu discriminatório critério, o PCP e o BE, representando quase 20% do eleitorado, não fazem parte do «arco da governação».

Pergunta-se então, a quem cabe a escolha dos partidos e da sua representatividade na AR? São as portuguesas e os portugueses e não aqueles, nacionais e estrangeiros, que se alcandoram em donos de Portugal.

Ao «arco da governação» deste país pertencem todos os deputados com assento parlamentar. As portuguesas e os portugueses merecem mais respeito mas só é pena que não façam valer o seu direito à verdade e continuem a ir no canto das sereias de gente sem escrúpulos.

 

 

domingo, 28 de julho de 2013


MINORIZAR??!!!!

 

Hoje, no noticiário das 13h00 da Antena 1, ouvi o senhor (?) primeiro (?) ministro, Passos Coelho, utilizar o verbo «minorizar», inexistente no nosso vocabulário, à primeira vista, confundindo-o com minorar, provavelmente pela ânsia de reiterar pela enésima vez, atropelando-se ou por mero desconhecimento, a sua total confiança na ministra das finanças, Maria Luís Albuquerque.

O momento actual dos governantes deste país e da maioria que o sustenta atingiu o ridículo, pois não se enxergando, ignorando o seu lamentável currículo, pretendem inculcar nos cidadãos, verdades que não passam de puras e descabeladas mentiras.

Começando pelo mais recente, o caso dos swaps, íntimamente relacionados com a ministra das finanças que mentiu (não vale a pena usar o eufemismo das inverdades), conforme o comprovaram as declarações do ex ministro Teixeira dos Santos, do ex secretário de estado do tesouro, do ex director geral dos impostos e dos documentos divulgados, para além do reconhecimento explícito de Victor Gaspar, então ministro. Ora bem, perante estes factos, o primeiro-ministro e os porta-vozes da maioria, têm o desplante de defender a dita senhora, no seu entender sem mácula. Que conceito de democracia é o desta gente?

Recordemos que a maioria governante foi eleita, nas últimas legislativas, com base num programa, dito reformista, que logo a seguir à tomada de posse, foi ignorado e metido a ferros numa funda gaveta, passando a levar a cabo uma política totalmente oposta àquilo que haviam prometido, destruidora do estado social, desrespeitadora dos direitos adquiridos dos trabalhadores da função pública e do privado e, inacreditável até agora, fazendo tábua rasa do contrato assinado pelo Estado com os pensionistas e reformados.

Convém lembrar que nenhuma das metas da governação, apregoada por Passos Coelho e o então ministro das finanças, Victor Gaspar, ultrapassando os ditames da troica, numa postura mais papista que o papa, foi cumprida o que conduziu o país e os portugueses ao desastre social, económico e financeiro actual e à necessidade de um muito provável novo resgate, com todas as consequências negativas, sempre para os mesmos, isto é, os menos favorecidos da nossa sociedade.

À terrível situação a que o país e os portugueses chegaram, criada e sustentada pela maioria e seu governo, num sistemático incumprimento da palavra, mudando despudoradamente de argumentos no mesmo dia ou de um dia para o outro, acrescenta-se o desrespeito das regras da democracia que obrigam à obediência a elementares princípios da moral e da ética. Basta ter presente que nunca o primeiro-ministro e seus ministros reconheceram os seus êrros e más políticas, não assumindo assim a óbvia necessidade da revisão do seu comportamento e actuação, atribuindo sempre a terceiros os seus fracassos e imposturas, com a maior das desfaçatezes. De resto, a manutenção da ministra das finanças, depois da sua expressa falta de idoneidade moral e ética, é demonstrativa da costela antidemocrática do primeiro-ministro, ontem reforçada com o seu desajeitado apelo à união nacional….

A par do governo e maioria parlamentar (maioria socialmente perdida) está o presidente Cavaco Silva que os tutela, quer porque depois da explícita desconfiança no governo e maioria, manifestada no discurso do dia 10 de Julho, numa pirueta circense considerou, como um mal menor, mantê-los em funções até ao fim da legislatura. Este presidente da República revelou o seu pendor autoritário e confirmou, uma vez mais, que não é presidente de todos os portugueses. O carácter sectário deste homem revelou-se bem no desaforo e menoridade mental de ignorar, numa visita de Estado, o único Prémio Nobel da Literatura de língua portuguesa, José Saramago. Esta execrável atitude foi uma afronta a Portugal, aos portugueses e à cultura universal.

 

 

 

 

quinta-feira, 20 de junho de 2013


JOSÉ SÓCRATES ÉS O CULPADO
 

De novo Cavaco Silva demonstrou a sua escolha de inequívoco apoio ao governo, depois da decisão do Tribunal Constitucional que considerou inconstitucionais algumas normas do OE13, após dúvidas por si levantadas.

Como entender esta surpreendente reviravolta, do chamado mais alto magistrado da nação? Distracção? Estupor? Provocação? Vingança?

A meu ver, o homem talvez estivesse distraído quando, num inusitado relâmpago, despachou favoravelmente a proposta do governo sobre o pagamento do subsídio de férias em Novembro, para os funcionários públicos e pensionistas que auferem acima de 1.100€, contrariando o estabelecido na lei fundamental e prejudicando aqueles e o país. Distraído apenas porque, ao menos, poderia ter aconselhado o primeiro-ministro a mudar a designação do subsídio ou o calendário e as estações do ano, trocando o verão com o inverno…

Estupor, isto é, falta de discernimento? Talvez.

Provocação não, tal implicaria discernimento.

Vingança? Provavelmente, este poderá ter sido um motor, perante a reacção dos funcionários públicos, dos professores em particular, mas também de muitos outros portugueses que o contestam aberta e fortemente, quer nas ruas como nas redes sociais e nos programas de opinião na rádio e televisão quer nas sondagens com a avaliação negativa da sua actuação, numa clara expressão oposta à de qualquer dos outros presidentes eleitos.

Ora é óbvio o apaixonado alinhamento com o governo que, segundo ele insiste, continua a ter toda a legitimidade porque é apoiado por uma maioria parlamentar. Parece que ignora a insistente opinião invectivando o comportamento cívico dos governantes e suas políticas, de figuras de proa do PPD/PSD e também do CDS, nomeadamente Bagão Félix e, relativamente, Pires de Lima. Ainda se fosse apenas gente de esquerda, mas não, a oposição é generalizada a toda a sociedade e o homem não consegue descortiná-lo.

Há dias, um cidadão, no auge da indignação, chamou-lhe palhaço mas eu não estou de acordo porque os palhaços merecem-me todo o respeito e a sua actuação é muito apreciada por miúdos e graúdos. Também não o apodaria de burro porque este simpático animal nada tem de burro.

Mas que ao homem lhe falta algo é uma evidência.

Ah Sócrates que agora estás na berra com os teus pertinentes comentários televisivos, responsabilizo-te pela eleição de Cavaco (com 0,5% de vantagem) quando «obrigaste» Mário Soares (que também não se livra do fiasco Nobre) a candidatar-se, impedindo que Manuel Alegre fosse eleito. Não te livras da indiscutível responsabilidade de termos Cavaco como presidente da república e dos malefícios da sua lamentável magistratura.

terça-feira, 7 de maio de 2013


PORQUÊ A AVERSÃO?

Para onde vai este país com estes governantes e a maioria que os sustenta? Como classificar esta gente que nada respeita que atropela princípios que faz tábua rasa de contratos estabelecidos pelo Estado que renega direitos adquiridos?

Por outro lado, esta gente tem revelado aversão visceral pelos funcionários públicos e pelos pensionistas, na sua perspectiva e actuação, os primordiais responsáveis pelo caos financeiro do país. Um dos alegados fundamentos são os elevados salários de que disfrutam, «esquecendo-se» da predominância de quadros superiores licenciados, enquanto no sector privado o nível de escolaridade da maioria é baixo.

De facto, as medidas de austeridade que há dois anos têm sido impostas, são-lhes, em particular, dirigidas, reduzindo salários, pensões, apoios de saúde e sociais.

Porquê?

Relativamente à doentia má vontade contra os funcionários públicos, cujo número é inferior ao de vários países europeus, tem por objectivo principal a intenção de impor o Estado mínimo, apagando o serviço público, privatizando todos aqueles serviços potenciais geradores de lucro. De resto, este princípio começou paulatinamente a executar-se na saúde, na educação, nas empresas públicas quer através da desorçamentação das unidades do Serviço Nacional de Saúde e dos estabelecimentos de ensino publico, ao mesmo tempo que diminuem os quadros de pessoal, impedem o recrutamento de novos quadros e forçam os despedimentos, quer do subsídio e incentivo ao ensino e saúde privados, paralelamente ao aumento das taxas moderadoras e dos custos dos exames complementares e intervenções cirúrgicas, quer à venda ao desbarato de empresas publicas rentáveis, em concursos de duvidosa legitimidade e transparência. Hoje em dia é mais barato e eficaz o recurso aos hospitais e clínicas privadas e das misericórdias do que aos serviços públicos, intencionalmente tornados mais caros e ineficientes.

A saúde e o ensino, para esta gente, devem ser a priori actividades lucrativas, em confronto directo com a Constituição da Republica, isto é, não são direitos universais dos portugueses pois quem tiver dinheiro pode ter saúde e ensino de qualidade, quem não o tiver sujeita-se a qualidade deficiente ou morre ou limita-se à formação básica ou ainda ao semi-analfabetismo.

Os avanços notáveis nestas áreas, reconhecidos internacionalmente, a seguir ao 25 de Abril, estão postos em causa porque, segundo eles e elas, os portugueses não podem continuar a usufruir desses direitos pois não há sustentabilidade financeira para tal.

Relativamente aos pensionistas, igualmente afectados pelas medidas  discriminatórias atrás referidas, são vitimas de indignidade desta gente sem escrúpulos para quem o contrato assinado com Estado, no acto da sua  admissão, há mais ou menos décadas, no serviço público, nada significa e, por isso, é ignorado. Para estes miseráveis vendilhões o Estado não é pessoa de bem, o que conta são os seus interesses de classe e opção ideológica.

Concluindo, a referência a vários economistas e comentadores de direita, por isso insuspeitos, nomeadamente Bagão Felix, ex-Ministro das Finanças, que denunciam o grave atentado aos direitos adquiridos inalienáveis dos pensionistas, perpetrados por estes inqualificáveis governo e maioria que o sustentam.

 

segunda-feira, 1 de abril de 2013


O BILHETE DA TAAG

Ao chegar ao Laboratório[1] na manhã de 25 de Abril de 1974, circulavam insistentes rumores sobre a eclosão de um golpe de estado em Portugal, desconhecendo-se quais os seus mentores, temendo-se que se tratasse de uma iniciativa da ultra direita civil e militar, descontente com a ambiguidade e a proverbial indefinição do primeiro-ministro Marcello Caetano.

Entretanto, fui recebendo vários telefonemas, entre os quais de minha mulher, todos eles relacionados com o mesmo sobressalto até que, pela rádio, ficámos a saber que não se confirmava o mau agoiro admitido e exultámos então com o cariz progressista do acto revolucionário eclodido enquanto repetidamente nos beliscávamos, ainda temendo uma reviravolta.

Perante o inesperado, mas há muito desejado, acontecimento, todo o planeamento de vida ficou posto em causa, pois que a prioridade passou a ser a democratização do país, de todas as suas instituições, com repercussão óbvia nas colónias, nomeadamente em Angola, a minha terra e dos nossos filhos.

Antevia-se o fim do receio do ouvido amplificador dos bufos, da hipocrisia do selo de povoamento e da província ultramarina, do ridículo Portugal do Minho a Timor, o culminar da libertação dos povos português, do angolano e das outras colónias.

O planeado doutoramento ficou adiado sine dia, outros valores tornaram-se prioritários.

Assim, de imediato, regressei à minha Faculdade para saborear in loco a liberdade e dar o meu contributo nas imperativas transformações para a já referida democratização da nossa Universidade, começando pela eleição universal da Comissão Directiva pelos trabalhadores, estudantes e docentes.

Importa salientar a importância imediata dos movimentos de libertação, FNLA, UNITA e MPLA, avultando a grande implantação sociológica regional da UNITA, por razões tribais e religiosas.

Duas listas foram então constituídas e apresentaram-se a sufrágio, evidenciando-se desde logo, na sua constituição, as simpatias pelos movimentos de libertação. Uma das listas, a A, era composta por apaniguados dos dois primeiros e a outra, a B, sem conotação política expressa, embora integrando simpatizantes do MPLA.

O pleito eleitoral contrariou as previsões que apontavam para uma vitória expressiva da lista A, já que saíu vencedora a lista B, resultado que frustrou as hostes da UNITA, particularmente o seu chefe Jonas Savimbi que, de seguida, determinou a intimidação de toda a gente que o levou a invadir assembleias gerais em curso. A opção do eleitorado repetiu-se em 1975 o que causou grande mal-estar em Savimbi e seus apaniguados.

Estes repetidos resultados explicam-se com o conhecimento adquirido pelos trabalhadores, a maioria dos eleitores, dos componentes das duas listas, ultrapassando deste modo as suas preferências tribais. De resto, o desempenho da Comissão Directiva eleita que promoveu a humanização dos seus quadros de pessoal técnico e auxiliar, eliminando a discriminação racial vigente e remunerando em função das capacidades profissionais de cada um, independentemente da sua etnia, justificou a escolha feita pelos eleitores

Entretanto, a coexistência entre as três organizações político-militares, MPLA, FNLA e UNITA, rompera-se, a guerra estalou e implantou-se em todo o território. Neste contexto, a 9 de Agôsto de 1975, a UNITA apoderou-se do Huambo e expulsou ou assassinou os representantes e simpatizantes do MPLA.

Perante esta realidade e a atitude hostil de Savimbi manifestada através das manobras atrás referidas, decidimos, minha mulher e eu, abandonar Nova Lisboa com os nossos filhos, aproveitando miraculosamente, em dias sucessivos, aviões da Força Aérea Portuguesa que transportara militares da UNITA expulsos das regiões controladas pelo MPLA, primeiramente minha mulher e os nossos dois filhos mais novos, já que as duas mais velhas tínhamo-las levado, dias antes, ao Lobito de carro e depois a Luanda, em avioneta fretada para o efeito, que seguiram para Portugal na companhia de uma família amiga. No dia seguinte, foi a minha vez de partir. No aeroporto, verifiquei com emoção, que um funcionário da nossa Faculdade, activista e dirigente da UNITA, depois de olhar para mim fizera por ignorar-me pois, se assim não fizesse, deveria dar-me ordem de detenção.

Ao partirmos de Nova Lisboa, trouxemos apenas alguma roupa, as jóias, alguns brinquedos dos miúdos e (?) um pequeno leitor de cassetes-áudio SONY que tinha comprado em Luanda semanas antes. Esta abrupta decisão pressupunha o nosso regresso, num futuro próximo, na esperança de que a paz voltasse um dia ao Huambo e ao país.

A 14 de Setembro partimos, de férias, para Portugal, embora com a incumbência do Senado Universitário e do MPLA que então governava o país, de contactar em Portugal e no estrangeiro, solicitando o apoio à nossa Universidade, em especial à Faculdade de Ciências Veterinárias de Nova Lisboa.

Assim, vim munido de um volumoso bilhete da TAAG (Transportes Aéreos de Angola) o que me permitiria viajar para vários países europeus, até ao nosso regresso a Angola, previsto para Outubro/Novembro seguintes, depois de gozarmos o período de férias estabelecido.

Entrementes a situação deteriorava-se em Angola e considerava-se eminente a invasão do território  quer no norte, a partir do Zaire, por forças militares regulares deste país, comandado por Mobutu, assessoradas por mercenários portugueses, quer a partir do sul pela UNITA apoiada pelo exército da África do Sul do apartheid, cujo objectivo conjunto era a entrada em Luanda, a expulsão do MPLA e a tomada de poder.

Nesta preocupante perspectiva, decidi protelar a programada viagem até que a situação se aclarasse. Posteriormente, também adiámos o regresso ao país, perante a instabilidade e a insegurança nele reinantes.

Até à data da declaração unilateral da independência pelo Presidente do MPLA, Agostinho Neto, no dia 11 de Novembro de 1975, a eminência da invasão referida era um facto praticamente consumado mas, a intervenção militar maciça de Cuba, em apoio às FAPLA, susteve-a e infligiu, a partir desse dia, pesadas derrotas aos invasores que, na precipitação da retirada, destruíram tudo quanto encontraram pelo caminho, infraestruturas, estradas, edifícios, explorações agrícolas e pecuárias, etc., etc., numa acção particularmente destruidora dos sul-africanos.

A segurança dos nossos filhos e a sua subsistência foram as prioritárias razões do não regresso antes do dia da independência o que foi interpretado, pelos dirigentes de então da Faculdade, um acto de traição ao país, interpretação que obstaculizou o nosso desejo de retorno.

Vem a propósito dizer que nenhum daqueles dirigentes, então ultra-revolucionários, permaneceu em Angola.

Com os nossos quatro filhos reconstruimos a vida familiar, escolar e profissional em Portugal partindo, praticamente do zero, em termos materiais.

Concluindo, o volumoso bilhete da TAAG mantém-se em nosso poder, intacto.

 

 

 



[1] Estágio em Hematologia e Imunologia no Laboratório de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina de Luanda, dirigido pelo Prof. Gil da Costa, preparatório da tèse de doutoramento sobre Hematologia de Bovinos, na École Vétèrinaire de Alfort, França.