AS ORIGENS DA MINHA
VIRAGEM
Nasci numa família católica
tradicional, a minha mãe uma zelosa praticante e o meu pai, presente numa única
missa anual, a Missa do Galo, sempre impaciente porque nunca mais se chegava ao
fim…
Pela mão de minha mãe, fui
seguindo todos os degraus da prática católica, o baptismo, a confirmação e a
comunhão solene, da qual conservo um bonito laço branco com uma imagem, hoje
bichado por inoportunas traças.
Porque vivíamos no «mato»
(Dondo e Novo Redondo), concluida a instrução primária, a necessidade de
prosseguir os estudos secundários, obrigou os meus pais a instalar-me em
Luanda, róído de saudades. Ao tempo, havia dois liceus, Salvador Correia em
Luanda e Diogo Cão em Sá da Bandeira e colégios privados em algumas cidades,
além das Missões Católicas e Protestantes. A influência quase permanente da religião
prolongou-se em casa de amigos, muito beatos, onde estive uns tempos e
interno em dois colégios ligados também à religião católica, um em Luanda, o
Colégio Académico e outro, em Sá da Bandeira, o Colégio Infante de Sagres dos
padres do Espírito Santo.
Bem comportado, como sempre
fui (não é toleima creiam…), os mentores do colégio acompanharam-me sempre,
instigando o culto da missa diária, em regra como ajudante do oficiante,
comungando também quotidianamente. Estava ali um santo em germe…
Feito o 5º ano dos liceus no
Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, integrei o seu Internato, de muito gratas recordações,
frutificadas em grandes amizades que ainda hoje perduram e onde estive
(finalmente) liberto do ponto de vista religioso. Neste Liceu fiz o terceiro
ciclo, 6º e 7º anos, em 1954, dispensando do exame de aptidão à universidade,
com a média de 14 valores.
Entretanto, a minha irmã mais velha fez um casamento religioso e eu ajudei à missa da cerimónia.
Porque o nosso ano lectivo em
Angola terminava em Dezembro, só ingressei na Universidade em Outubro de 1955,
na Escola Superior de Medicina Veterinária de Lisboa (única escola de MV em
Portugal), pois o ensino universitário em Angola só foi finalmente criado, como
Estudos Gerais, em 1963, depois da eclosão da Guerra Colonial em 1961.
A abertura à sociedade
lisboeta, diferente sob todos os pontos de vista, foi inicialmente um pesadelo,
agravado pela saudade da família e da inesquecível terra mãe.
O hábito da missa ao domingo
persistiu, sem falhas, mas à medida que o tempo foi passando, a ida à Igreja de
S. João de Deus, na Praça de Londres, passou a realizar-se, sobretudo, pelo interêsse
na saída da santa missa das 10 horas, das jovens e atraentes praticantes.
O iniciado contacto com os
colegas nas aulas e na Associação dos Estudantes e as actividades culturais
nelas desenvolvidas e, mais ainda, com as associações de estudantes dos outros
cursos e universidades, abriu-nos os horizontes que se consolidaram nas
diversas associações culturais, incluindo os cineclubes, particularmente o
Cineclube Universitário de Lisboa, no cinema e no teatro, onde sobressaiu o Teatro
Dona Maria II a Companhia brasileira de Maria Dellacosta e as sessões culturais e recreativas na CEI (v/adiante).
Aos banhos de cultura referidos
juntou-se, com imensa importância para mim, a compulsão da leitura estimulada
por um colega mais velho, um camponês saloio que, aos 20 anos, com a 4ª classe,
decidiu estudar e concluir o Curso de Medicina Veterinária 7 anos depois. Foi
com ele, o meu colega Guilherme Paisana, que me iniciei na leitura do grande,
muito grande escritor brasileiro, Jorge Amado, desde Os Capitães da Areia aos
Subterrâneos da Liberdade que ele me foi emprestando.
A par de Jorge Amado, outros
grandes escritores foram por mim descobertos, como Stendhal, Sartre, Marx, Camus,
Capote, Eça, Arthur Miller, Joyce, Mann, etc.
Aos poucos, sem esquecer os
valores que me foram incutidos pelos meus pais, fui-me interrogando sobre o que
trouxera, em termos sociais, culturais, filosóficos, religiosos de Angola,
constatando que muito pouco ou quase nada tinha sido, salvo um certo acéfalo fanatismo
religioso aceite sem discussão, isto é, sem qualquer avaliação crítica. Este
vazio deu-me conta de que eram insignificantes ou mesmo nulas as minhas
preocupações com a vida em Angola, sobretudo os aspectos sociais com o
subdesenvolvimento dos povos do país, como mais de 90% de analfabetos, vivendo
no limiar da pobreza extrema.
A insegurança que as dúvidas
sobre a religião e a crença acrítica, então tabus quando cheguei a Portugal, se
levantaram em mim, tiveram um lenitivo na leitura do Drama de Jean Barois de
Roger Martin du Gard e também nas obras de Jorge Amado, de Sartre e de Camus.
Tudo foi posto em causa, tornando possível a livre definição de um rumo sem
peias nem medos, por irrelevantes.
Por fim, uma outra
significativa e frutuosa etapa da minha vida de jovem adulto foi a entrada, em
1957, na Casa dos Estudantes do Império (CEI), num ambiente de convívio fraterno que
todos queríamos transplantar para os nossos países de origem, no meu caso
Angola. É oportuno referir agora que foi nesta Casa que conheci a minha mulher, Maria Amália, minha companheira de sempre e apoiante na definição do meu rumo.
Hoje e desde então, com a profunda
reflexão que levei a cabo, considero-me um homem livre de preconceitos ou
sujeições idólatras.
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