domingo, 22 de novembro de 2015


AQUI D’EL REI…

Não há exagero da minha parte em afirmar que hoje em dia, a RTP/RDP é mera caixa de ressonância das posições das direitas, em particular do seu governo, num ataque cerrado à possibilidade de concretização de um governo do PS, apoiado pelo BE, PCP e PEV, isto é, sustentado na maioria parlamentar absoluta.

Na RTP é notória a parcialidade político-ideológica quer nos telejornais, como nos mais recentes programas, nomeadamente no 360º, no canal 8 ou RTP3, n’As Palavras e os Atos, na Grande Entrevista e também nos Prós e Contras, onde a promotora está sempre pronta para ir em apoio destes governantes em gestão, depois do chumbo do Parlamento.

Na RDP é também um fartote quotidiano de apoio ao status quo. Ontem foi entrevistado nesta estação de rádio, João Salgueiro, economista e banqueiro, afinado pelo mesmo diapasão ideológico. Ora bem, hoje durante os vários noticiários da manhã, foram transmitidos extractos dessa entrevista, incluindo no das 13 horas, prenunciando a transmissão integral após a conclusão deste ultimo. De resto, o entrevistado é claro no seu posicionamento contra a possibilidade de um governo legítimo de esquerda e nem titubeou ao preconizar a venda imediata do Novo Banco a qualquer preço… e eu acrescento… em benefício do capital privado.

Dentro desta deliberada atitude de protecção à direita está a escolha a dedo dos participantes nos debates, sejam eles/elas economistas/politólogos/comentadores, clones uns dos outros, apregoando os terríveis perigos que se avizinham com a esquerda a governar.

Vem a talhe de foice pôr a questão sobre a parcimoniosa escolha referida, sempre do mesmo sinal, salientando-se enfaticamente a presença de ex-governantes do PS, igualmente solidários com as políticas que conduziram à actual situação sócio-económico-financeira dos portugueses. Ora, depois da desonestidade intelectual dos governantes, com uso e abuso sistemático da mentira, da crítica soez, em particular, depois das eleições de 4 de Outubro nas quais a direita perdeu a maioria parlamentar absoluta que lhe permitiu cegamente impôr, durante 4 anos, todas as malfeitorias à maioria dos cidadãos e cidadãs, perdeu deputados, perdeu eleitorado, o PS, através do seu secretário geral António Costa, decidiu romper os acordos com o PPD (por coerência com a sua prática ultraliberal, já que de PSD nada tem) e CDS, em rutura com a prossecução das políticas de empobrecimento dos portugueses, de redução das prestações sociais, de destruição do SNS, de desinvestimento na escola publica, em benefício do sector privado, no desprezo pela cultura, pondo acima de tudo a protecção da minoria DDT.

Entretanto, o PS ao entabular conversações com a coligação PàF verificou estupefacto a arrogância dos seus representantes que pretendiam impôr a continuidade da sua política, como se não tivesse ocorrido a mudança substancial com as eleições em 4 de Outubro.

Nestas circunstâncias, o PS iniciou contactos com os outros partidos de esquerda, na procura de uma alternativa político.ideológica à da direita e, após laboriosas negociações com o beneplácito dos respectivos orgãos de cúpula, acordaram na sustentação de um governo, liderado pelo PS, para uma legislatura e, eventualmente, seguintes, legitimado pela maioria parlamentar absoluta, isto é, claramente sufragada pelos eleitores.

Perante a situação desenhada, caíu o Carmo e a Trindade, aqui d’el rei que aí vem a esquerda com o espírito cavernícula salazarento que se esperava ter sido banido, de vez, com o 25 de Abril de 1974. O desnorte, o desespero, o pavor, apossou-se de toda a direita e seus apaniguados, que de cabeça perdida, tiveram como ultima investida anti-democrática a defesa de uma revisão constitucional à la carte, insultando a maioria dos eleitores portugueses representados no Parlamento saído das eleições de 4 de Outubro, com o persistente e intenso apoio da direcção de informação da RTP/RTP.
Será que o pavor destemperado da direita está relacionado com algo escondido?

Neste momento, espera-se que, finalmente, o Presidente da Republica indigite como primeiro ministro o Dr. António Costa e que se entre em normalidade estatutária, com um governo de esquerda, para bem de todos os portugueses e de Portugal.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A GERAÇÃO DA LIBERDADE . A Casa dos Estudantes do Império e os movimentos independentistas africanos





Com este título, Fátima Campos Ferreira (FCF) «conduziu», na passada segunda-feira na RTP1, um programa com convidados ilustres de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné e Portugal, em substituição do seu «Prós e Contras» habitual.

Esta iniciativa pareceu-me ter surgido na sequência da Homenagem aos Associados da Casa dos Estudantes do Império levada a cabo pela UCCLA, em Outubro de 2013 na Reitoria da Universidade de Coimbra e nos passados dias 22, 23 e 25 de Maio p.p. na Gulbenkian.

Contudo, qualquer semelhança entre os dois eventos é pura coincidência, porque a vivência sobre a CEI e sua repercussão na formação pessoal dos Cestimpérios presentes que deveria ter sido o cerne da questão, foi tocada apenas por quatro intervenientes, Miguel Trovoada, Joaquim Chissano, Victor Ramalho e Pedro Pires, isto é, a tónica geral afastou-se daquele objectivo expresso no título, porque assim o orientou FCF em resultado de não ter feito (ou não estar interessada) um adequado trabalho de casa.

De facto, FCF deveria ter-se documentado sobre aquelas duas excelentes e profícuas realizações da UCCLA e não o fez. Tão pouco procurou informar-se melhor sobre a CEI e seu enquadramento social, denotando grande ignorância do tema.

Por diversas vezes FCF referiu-se à CEI como Casa do Império e aos cafés frequentados pelos cestimpérios, citando (bem) o Rialva, o Montanha (na Portagem em Coimbra…) e olvidou a Mimo, onde eram habituais os longos e animados «papos» e o jogo do 31, que ficaram marcados por eles que geraram amizade com os seus empregados, sempre atentos à presença de pides que davam rapidamente a conhecer-lhes.

Relevante foi ainda o contacto desajeitado e quase agressivo de FCF com Joaquim Chissano, através da RTP África, que só o bom senso e educação do entrevistado salvaram a situação. Invocar o racismo dos negros para os brancos em Moçambique e o seu afastamento do idioma português, foi algo de muito mau gosto mas, felizmente, teve a resposta merecida

É pena que tenha corrido assim, porque a Casa dos Estudantes do Império, os seus associados e a sua histórica contribuição para a libertação das colónias portuguesas e de Portugal, mereciam um tratamento justo e bem fundamentado

 

sábado, 25 de abril de 2015

QUEM INICIOU A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS ?


QUEM INICIOU A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA

DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS?

Estão passando quase 39 anos desde que se tornaram independentes as antigas colonias portugueses, depois de quatro séculos de dominação de territórios imensos, nomeadamente Angola e Moçambique, por um pequeno país distante de milhares de quilómetros, distância enorme a percorrer durante longos e penosos meses, até finais do séc.XIX.

Como se explica então a aparente passividade dos povos colonizados? A meu ver, são vários os seus factores explicativos, concretamente em relação a Angola, onde nasci e vivi, tais como:

  1. O subpovoamento do interior e também das regiões costeiras, embora menos acentuado nestas, de um imenso território com mais de 1,5 milhões de km2 de superfície.
  2. A repressora máquina administrativa.
  3. A «superioridade» do branco, imposta aos negros em todas as acções do quotidiano.
  4. O total controlo económico, financeiro e fundiário do colono.
  5. A marginalização deliberada dos negros, em condições sub-humanas, em guetos (musseques), deles se ausentando apenas para ir servir o branco, auferindo salários miseráveis.
  6. As impositivas barreiras no acesso  dos negros ao ensino e à cultura, impondo-se assim o analfabetismo e a iliteracia na maioria esmagadora.
     
    Um exemplo extremo das consequências da segregação racial e subdesenvolvimento dos negros era a cidade de Sá da Bandeira, hoje (e sempre) o Lubango, que possuía um dos liceus do país, o Diogo Cão, onde estudavam, nos anos 50 do século passado, mais de 700 alunos, dos quais menos de 3% eram negros e mestiços! A propósito, em Luanda no Liceu Salvador Correia, naquela década, já predominavam os mestiços e haviam alguns negros. Também em Benguela, cidade mestiça angolana por excelência, a população estudantil incluía já muitos mestiços e poucos negros.

Recordo agora Luanda em 1962, que há época teria mais de 500.000 habitantes, rodeada por musseques, onde não existia saneamento básico, nem abastecimento de água e electricidade, nem arruamentos. Estava-se ainda no rescaldo dos trágicos acontecimentos de 15 de Março de 1961 nos Dembos e era comum a acusação na praça pública, de terrorista, para um qualquer transeunte negro que se lhes atravessasse no caminho.

Apesar de tudo, na década de 60 do século passado, a situação sócio-económica dos mestiços e negros em Luanda e nas grandes cidades (Benguela, Lobito, Huambo) era melhor do que a que se passava nos pequenos agregados populacionais, pois naquelas já aflorava uma pequena burguesia, sobretudo mestiça mas também negra que desempenhava funções no aparelho de estado, tolerada à distância pelo branco.

O que está em causa agora é assinalar quem de facto iniciou a luta pela independência das colónias portuguesas, isto é, qual o ponto de partida da mesma.

A meu ver, na base de tudo estiveram intelectuais que meteram ombros a uma ciclópica tarefa de chamar os colonizados e o mundo para a realidade colonial onde imperava a injustiça, uma feroz segregação racial, o desprezo pela dignidade humana dos colonizados, com o domínio absoluto de uma minoria branca, dona de tudo e de todos.

No caso de Angola, que creio possa ser extensível às outras colónias, estão entre muitos outros, Mário de Andrade, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, Lúcio Lara, Joaquim Pinto de Andrade, António Jacinto, Carlos Rocha, Gentil Viana, Júlio Almeida, Carlos Ervedosa, Salvador Ribeiro, Tomás Medeiros, Costa Andrade, Manuel Lima, Luandino Vieira, Henrique Abranches, Ermelinda Graça, Edmundo Gonçalves, Edmundo Rocha, Aida e Percy Freudenthal, Ernesto Lara, David Bernardino e muitos, muitos outros.

Além destes nomes sonantes, que por direito próprio fazem parte relevante da História do país, muitos mais intelectuais angolanos que hoje não passam de meros anónimos, deram o seu contributo, fazendo trabalho de sapa no quotidiano, nos contactos com as gentes, quer em Angola como em Portugal, antes como depois do início da guerra anti-colonial e a seguir ao fim da devastadora guerra civil.

Foram de facto aqueles intelectuais que iniciaram a luta de libertação, passando o testemunho, sem dele se afastarem, àqueles que encabeçaram a luta armada no terreno e na rectaguarda, entre os quais muitos dos constantes da lista acima a que se juntaram angolanos de todas as proveniências.

O analfabetismo e incultura impostos pelo governo fascista de Portugal explicam que só posteriormente, a pouco e pouco, as massas populares foram aderindo ao processo.

Por fim, vem a talhe de foice referir uma afirmação de José Manuel Jara, médico nascido em Angola, citado por Fenando Dacosta em «Os retornados mudaram Portugal» de que dos 600.000 brancos «retornados» apenas 1000 tinham consciência do que do que se passou em Angola. Esta minoria era a camada progressista e intelectual, onde se incluíam os acima referidos.

Aquela frase de Jara foi o mote para esta minha reflexão.

 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

QUEM INICIOU A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA DAS COLONIAS PORTUGUESAS ?

QUEM INICIOU A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA


DAS COLONIAS PORTUGUESAS
Estão passando quase 39 anos desde que se tornaram independentes as antigas colonias portugueses, depois de quatro séculos de dominação de territórios imensos, nomeadamente Angola e Moçambique, por um pequeno país distante de milhares de quilómetros, distância enorme a percorrer durante longos e penosos meses, até finais do séc.XIX.
Como se explica então a aparente passividade dos povos colonizados? A meu ver, são vários os seus factores explicativos, concretamente em relação a Angola, onde nasci e vivi, tais como:
  1. O subpovoamento do interior e também das regiões costeiras, embora menos acentuado nestas, de um imenso território com mais de 1,5 milhões de km2 de superfície.
  2. A repressora máquina administrativa.
  3. A «superioridade» do branco, imposta aos negros em todas as acções do quotidiano.
  4. O total controlo económico, financeiro e fundiário do colono.
  5. A marginalização deliberada dos negros, em condições sub-humanas, em guetos (musseques), deles se ausentando apenas para ir servir o branco, auferindo salários miseráveis.
  6. As sistemáticas barreiras à entrada dos filhos dos negros no ensino e na cultura.
     
    Um exemplo extremo das consequências da segregação racial e subdesenvolvimento dos negros era a cidade de Sá da Bandeira, hoje (e sempre) o Lubango, que possuía um dos liceus do país, o Diogo Cão, onde estudavam, nos anos 50 do século passado, mais de 700 alunos, dos quais apenas menos de 3% eram negros e mestiços! A propósito, em Luanda no Liceu Salvador Correia, naquela década, já predominavam os mestiços e haviam alguns negros. Também em Benguela, cidade mestiça angolana por excelência, a população estudantil incluía já muitos mestiços e poucos negros.
Recordo agora Luanda em 1962, que há época teria mais de 500.000 habitantes, rodeada por musseques, onde não existia saneamento básico, nem abastecimento de água e electricidade, nem arruamentos. Estava-se ainda no rescaldo dos trágicos acontecimentos de 15 de Março de 1961 nos Dembos e era comum a acusação na praça pública, de terrorista, para um qualquer transeunte negro que se lhes atravessasse no caminho.
Apesar de tudo, na década de 60 do século passado, a situação sócio-económica dos mestiços e negros em Luanda e nas grandes cidades (Benguela, Lobito, Huambo) era melhor do que a que se passava nos pequenos agregados populacionais, pois naquelas já aflorava uma pequena burguesia, sobretudo mestiça mas também negra que desempenhava funções no aparelho de estado, tolerada à distância pelo branco.
O que está em causa agora é assinalar quem de facto iniciou a luta pela independência das colónias portuguesas, isto é, qual o ponto de partida da mesma.
A meu ver, na base de tudo estiveram intelectuais que meteram ombros a uma ciclópica tarefa de chamar os colonizados e o mundo para a realidade colonial onde imperava a injustiça, uma feroz segregação racial, o desprezo pela dignidade humana dos colonizados, com o domínio absoluto de uma minoria branca, dona de tudo e de todos.
No caso de Angola, que creio possa ser extensível às outras colónias, estão entre muitos outros, Mário de Andrade, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, Lúcio Lara, Joaquim Pinto de Andrade, António Jacinto, Carlos Rocha, Gentil Viana, Júlio Almeida, Carlos Ervedosa, Salvador Ribeiro, Tomás Medeiros, Costa Andrade, Manuel Lima, Luandino Vieira, Henrique Abranches, Ermelinda Graça, Edmundo Gonçalves, Edmundo Rocha, Aida e Percy Freudenthal, Ernesto Lara, David Bernardino e muitos outros, muitos outros.
Além destes nomes sonantes, que por direito próprio fazem parte relevante da História do país, muitos mais intelectuais angolanos que hoje não passam de meros anónimos, deram o seu contributo, fazendo trabalho de sapa no quotidiano, nos contactos com as gentes, quer em Angola como em Portugal, antes como depois do início da guerra anti-colonial e a seguir ao fim da devastadora guerra civil.
Foram de facto aqueles intelectuais que iniciaram a luta de libertação, passando o testemunho, sem dele se afastarem, àqueles que encabeçaram a luta armada no terreno e na rectaguarda, entre os quais muitos dos constantes da lista acima a que se juntaram angolanos de todas as proveniências.
O analfabetismo e incultura impostos pelo governo fascista de Portugal explicam que só posteriormente, a pouco e pouco, as massas populares foram aderindo ao processo.
Por fim, vem a talhe de foice referir uma afirmação de José Manuel Jara, médico nascido em Angola, citado por Fenando Dacosta em «Os retornados mudaram Portugal» de que dos 600.000 brancos «retornados» apenas 1000 tinham consciência do que do que se passou em Angola. Esta minoria era a camada progressista e intelectual, onde se incluíam os acima referidos.
Aquela frase de Jara foi o mote para esta minha reflexão.
 


QUEM INICIOU A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA ?


QUEM INICIOU A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA

DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS?

Estão passando quase 39 anos desde que se tornaram independentes as antigas colonias portugueses, depois de quatro séculos de dominação de territórios imensos, nomeadamente Angola e Moçambique, por um pequeno país distante de milhares de quilómetros, distância enorme a percorrer durante longos e penosos meses, até finais do séc.XIX.

Como se explica então a aparente passividade dos povos colonizados? A meu ver, são vários os seus factores explicativos, concretamente em relação a Angola, onde nasci e vivi, tais como:

  1. O subpovoamento do interior e também das regiões costeiras, embora menos acentuado nestas, de um imenso território com mais de 1,5 milhões de km2 de superfície.
  2. A repressora máquina administrativa.
  3. A «superioridade» do branco, imposta aos negros em todas as acções do quotidiano.
  4. O total controlo económico, financeiro e fundiário do colono.
  5. A marginalização deliberada dos negros, em condições sub-humanas, em guetos (musseques), deles se ausentando apenas para ir servir o branco, auferindo salários miseráveis.
  6. As sistemáticas barreiras à entrada dos filhos dos negros no ensino e na cultura.
     
    Um exemplo extremo das consequências da segregação racial e subdesenvolvimento dos negros era a cidade de Sá da Bandeira, hoje (e sempre) o Lubango, que possuía um dos liceus do país, o Diogo Cão, onde estudavam, nos anos 50 do século passado, mais de 700 alunos, dos quais apenas menos de 3% eram negros e mestiços! A propósito, em Luanda no Liceu Salvador Correia, naquela década, já predominavam os mestiços e haviam alguns negros. Também em Benguela, cidade mestiça angolana por excelência, a população estudantil incluía já muitos mestiços e poucos negros.

Recordo agora Luanda em 1962, que há época teria mais de 500.000 habitantes, rodeada por musseques, onde não existia saneamento básico, nem abastecimento de água e electricidade, nem arruamentos. Estava-se ainda no rescaldo dos trágicos acontecimentos de 15 de Março de 1961 nos Dembos e era comum a acusação na praça pública, de terrorista, para um qualquer transeunte negro que se lhes atravessasse no caminho.

Apesar de tudo, na década de 60 do século passado, a situação sócio-económica dos mestiços e negros em Luanda e nas grandes cidades (Benguela, Lobito, Huambo) era melhor do que a que se passava nos pequenos agregados populacionais, pois naquelas já aflorava uma pequena burguesia, sobretudo mestiça mas também negra que desempenhava funções no aparelho de estado, tolerada à distância pelo branco.

O que está em causa agora é assinalar quem de facto iniciou a luta pela independência das colónias portuguesas, isto é, qual o ponto de partida da mesma.

A meu ver, na base de tudo estiveram intelectuais que meteram ombros a uma ciclópica tarefa de chamar os colonizados e o mundo para a realidade colonial onde imperava a injustiça, uma feroz segregação racial, o desprezo pela dignidade humana dos colonizados, com o domínio absoluto de uma minoria branca, dona de tudo e de todos.

No caso de Angola, que creio possa ser extensível às outras colónias, estão entre muitos outros, Mário de Andrade, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, Lúcio Lara, Joaquim Pinto de Andrade, António Jacinto, Carlos Rocha, Gentil Viana, Júlio Almeida, Carlos Ervedosa, Salvador Ribeiro, Tomás Medeiros, Costa Andrade, Manuel Lima, Luandino Vieira, Henrique Abranches, Ermelinda Graça, Edmundo Gonçalves, Edmundo Rocha, Aida e Percy Freudenthal, Ernesto Lara, David Bernardino e muitos outros, muitos outros.

Além destes nomes sonantes, que por direito próprio fazem parte relevante da História do país, muitos mais intelectuais angolanos que hoje não passam de meros anónimos, deram o seu contributo, fazendo trabalho de sapa no quotidiano, nos contactos com as gentes, quer em Angola como em Portugal, antes como depois do início da guerra anti-colonial e a seguir ao fim da devastadora guerra civil.

Foram de facto aqueles intelectuais que iniciaram a luta de libertação, passando o testemunho, sem dele se afastarem, àqueles que encabeçaram a luta armada no terreno e na rectaguarda, entre os quais muitos dos constantes da lista acima a que se juntaram angolanos de todas as proveniências.

O analfabetismo e incultura impostos pelo governo fascista de Portugal explicam que só posteriormente, a pouco e pouco, as massas populares foram aderindo ao processo.

Por fim, vem a talhe de foice referir uma afirmação de José Manuel Jara, médico nascido em Angola, citado por Fenando Dacosta em «Os retornados mudaram Portugal» de que dos 600.000 brancos «retornados» apenas 1000 tinham consciência do que do que se passou em Angola. Esta minoria era a camada progressista e intelectual, onde se incluíam os acima referidos.

Aquela frase de Jara foi o mote para esta minha reflexão.

 

domingo, 22 de junho de 2014


O TRIBUNAL CONSTITUCIONAL E A ALEGADA DEMÈNCIA DE CAVACO SILVA


Hoje em conversa com minha mulher, ela defendeu que o Tribunal Constitucional deveria intervir perante a apatia do presidente Cavaco Silva.
Esta opinião surgiu ao relembrarmo-nos da atitude desassombrada do General Garcia dos Santos, um militar de Abril, que se demitiu do Conselho Superior das Ordens Honoríficas «por não poder mais com o Presidente Cavaco, com a sua passividade» e, eu acrescento, com a sua confrangedora inércia e ruidoso silêncio, em face do sistemático atentado e provocação do governo, com o primeiro ministro à cabeça, à Constituição da República
Perante esta grave situação, Cavaco Silva diz, com aquele opaco fácies, «não sou sensível a pressões», mas a quais pressões a que ele não é sensível? Ao facto de se lhe recordar que jurou (terá sido com figas?), no acto de posse, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República? Mas que maior pressão é a do governo e seus acólitos, sobre o Tribunal Constitucional, ao apresentar três Orçamentos de Estado anticonstitucionais e o zelador e putativo defensor da Constituição manter-se impávido e abúlico?
Nestas circunstâncias, este presidente da república está a prejudicar e impedir o normal funcionamento das instituições do estado e, pelos vistos, sem se dar conta disso. De facto, Cavaco Silva já teve, pelo menos, duas camuecas, uma em 1995 e outra no dia 10 de Junho deste ano, provavelmente causadas pelo progressivo desenvolvimento de uma doença neurológica. Ora segundo uma mensagem que corre na net do Engº Carlos Pimenta, ex-colaborador do presidente e ex- secretário de Estado das Pescas e do Ambiente, o presidente sofre de Doença de Alzheimer, uma forma de demência progressiva. Por outro lado, o Jornal New York Times do dia 1 de Junho p.p., anunciou a breve resignação do presidente da república, por sofrer da doença atrás referida  Significa pois que Cavaco Silva cada vez menos dispõe de condições físicas e psíquicas para desempenhar em plenitude o cargo de Mais Alto Magistrado da Nação e, sabendo-se quem é a segunda figura de Estado, a Pátria está em perigo.

Assim, dever-se-ia pedir ao Tribunal Constitucional a avaliação da constitucionalidade da permanência de Cavaco Silva como Presidente da República, pois não garante o normal funcionamento das Instituições da República Portuguesa.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014


FLAGRANTES DESTA VIDA REAL

Recordo-me das Selecções do Reader’s  Digest, revista que o meu pai assinava e eu lia quando adolescente, em particular a rubrica onde eram relatados casos mais ou menos insólitos, conteúdo que agora recupero, para ilustrar situações semelhantes que ocorrem em Portugal.

  1. Começo por um caso que eclodiu há dias nos media, relacionado com a insólita reacção de um fazedor de opinião, ex-dirigente partidário, ex-candidato à presidência da Câmara de Lisboa, mergulhador no Tejo, putativo candidato a presidente da republica, perante a sua exclusão a candidato a candidato às próximas presidenciais pelo chefe do seu partido que alegadamente o considerou catavento e de opiniões erráticas, em face desta opinião ofensiva, «aceitou» abnegada e bovinamente tal veto….
  2. O imbróglio sobre os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, dois anos depois de estarem parados, a acumular prejuízos, com o governo a recusar o investimento necessário à sua reactivação, com a sua obscura subconcessão pelo ministro da defesa a uma empresa privada sem currículo na matéria, implicando o despedimento de mais de 600 trabalhadores, continua por esclarecer e o ministro  mantém-se imperturbável.
  3. A discussão em plenário da Assembleia da Republica, na semana passada, da coadopção e a despudorada fabricação de um referendo por um garoto inconsistente e néscio, obviamente, a mando do seu chefe, pois o assunto fora discutido na reunião da comissão política do partido, é o retrato de que certos deputados não merecem sê-lo, bem como de chefes sem categoria nem inteligência. Por outro lado, a imposição da disciplina de voto, para um tema como o que estava na mesa, é lamentável e antidemocrática, insólito a que acresceram as infelizes e farisaicas declarações de voto, depois de terem votado favoravelmente. Por ultimo, a atitude do CDS, parceiro falso e sem escrúpulos, da coligação governante, ao abster-se, camuflando-se do seu perene conservadorismo reaccionário que teve como exemplar máximo o deputado Morgado que Natália Correia ridicularizou.
  4. Realço agora o caso de um programa de rádio, presente no ar desde o século passado, intitulado «O amor é…» que vai para o étér de 2ª a 6ª feira, depois das nove da manhã, durante 5-10 minutos, beneficiando ainda de mais 60 minutos ao fim de semana. Fazem parte do elenco do «Amor é...(a maior parte dos programas mereceria antes o título de O sexo é…»), um conhecido psiquiatra com saber enciclopédico, émulo de Gregorio Marañon, e uma jornalista que se cumprimentam afectuosamente, como acontece nos últimos tempos, iniciando-se com a saudação seguinte: Olá Juliiiiiinho…». Penso que no panorama actual da rádio portuguesa «O amor (sexo) é…» é o programa com maior longevidade e não se esqueça que também já esteve na televisão, com periodicidade idêntica à da rádio. Arrisco-me a prever que ele perdurará por muitos e bons anos.
  5. Uma notícia de hoje, a preceder o encontro dos mais ricos do planeta em Davos, é aterradora e espelha uma injustiça que continua a crescer em paralelo com o marcado aumento da probreza, ao concluir-se que metade da riqueza mundial é pertença de 1%, um por cento, da população. Em Portugal, cujos governantes e sua maioria são amantes do ultraliberalismo, o fosso entre ricos e pobres é cada vez maior, com os amorins, soares, azevedos, etc., etc.,a encher-se à tripa fôrra à custa da crise fomentada todos os dias.
  6. O governo criou um grupo de trabalho independente (ah!ah!ah!)  que lhe possibilitará fundamentar o corte definitivo das pensões da CGA. É doentio o ódio com que o governo e sua maioria perseguem os funcionários públicos e os pensionistas da CGA .